sexta-feira, março 03, 2006

Renovação que se prolonga


Pouco a pouco, os lançarei de diante de ti,
até que te multipliques e possuas a terra por herança.
Não os lançarei de diante de ti num só ano,
para que a terra se não torne em desolação
e as feras do campo se não multipliquem contra ti.
Êxodo 23.30-31
O texto em epígrafe é parte das orientações dadas a um povo que estava sendo tirado de uma terra onde tinham sido escravos por mais de 400 anos. Nele, seu Deus lhes faz uma promessa de desocupar a terra que já lhes pertencia desde antes de seus anos de escravidão e que fora ocupada por outros povos. Todavia, esclarece que não vai desocupá-la toda de uma vez, mas há de fazê-lo paulatinamente, à medida que eles se fossem multiplicando. Caso contrário, a terra poderia ser invadida por feras.

Essa narrativa me faz lembrar de uma coisa que ouvi, certa vez, de um psicólogo. Ele dizia que, quando lidava com situações em que as pessoas estavam inseridas em crises muito intensas e iniciadas já há muito tempo, as terapias nunca visavam a extinguir abruptamente tais crises. A razão é que, quando as pessoas lidam há muito tempo com situações que absorvem seu tempo, sua atenção e sua energia, elas vão se tornando dependentes de tais crises. Extingui-las, abruptamente, seria o mesmo que retirar-lhes a base de sua sustentação, do motivo pelo qual, em última análise, elas vivem. Desse modo, o terapeuta deveria trabalhar no sentido de conduzir essas pessoas a encontrarem novas fontes de motivação para a vida. E, somente, à medida em que coisas novas fossem ocupando o espaço em suas mentes e corações, é que poderiam ir desocupando-se das antigas ocupações.

É incrível pensar nisso. Existem pessoas que são sustentadas pelas mesmas coisas que as atormentam. Lembro-me de um trecho de um poema barroco, intitulado "A uma ausência" do escritor português, Antônio Barbosa Bacelar, que dizia justamente isso:

"Sinto-me sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo, que me alenta,
O mal, que me consome, me sustenta,
O bem, que me entretém, me dá cuidado"

De fato, Deus conhece a estrutura do ser humano. É isso que somos. Nosso ser não é mais que uma ausência. Ocupamo-nos desesperadamente das coisas que tocarem as nossas vidas. Às vezes, algumas delas tocam nossos corações, consumindo-nos e dilacerando-nos. E, no entanto, não buscamos extingui-las, porque sabemos que o vazio, a ausência, é pior que qualquer outro mal. Não sabemos viver uma vida sem propósito. Mas há propósitos que queimam como fogo, enquanto insistimos em pensar que eles apenas nos alentam.

Eu entendo que é por isso que, quando encontramos em Deus o grande e único propósito que nos sacia com o bem verdadeiro, ele nos conduz daí em diante, num tratamento que varia de uma para outra pessoa, numa perspectiva temporal. Conquanto a obra dele seja plena em nós desde o primeiro encontro – se morrêssemos ali, estaríamos prontos – , há uma caminhada a ser feita, durante a qual o Espírito dele vai enchendo a vida da gente de fruto e nos livrando dos ranços oportunistas e parasitários de uma vida velha. Se pensarmos bem, às vezes não temos, para com as pessoas, nem com nós mesmos, a mesma paciência que vemos em Deus.

Quando o povo que fora libertado de sua escravidão, foi levado à terra que outrora era deles e agora voltaria a ser, eles tiveram que aprender a sabedoria de esperar a desocupação paulatina da terra, a qual iria acontecer na mesma medida em que fossem se multiplicando. Tomar posse da terra envolveria um processo de dupla face. Por um lado, era preciso que a terra fosse desocupada; por outro, era preciso crescer. E tudo isso num dinamismo tal que fosse capaz de impedir a acomodação na situação de crise.

Esse processo me ensina muitas coisas: É preciso saber quem sou, saber que sou distinto daquilo que invadiu a minha terra, o meu espaço, a minha vida, seja lá o que for. É preciso, ainda buscar ocupar a herança que me foi dada, o que farei na mesma proporção em que aprender a despir-me do que cheira à antigüidade, na mesma proporção em que aprender a despedir-me dos fantasmas que se negam como tais, na mesma proporção em que valores novos passam a encantar o meu olhar. É, assim, através deste processo, que vou deslocando o meu investimento de tempo, atenção e energia para as coisas que são totalmente novas.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Quando um ladrão é posto para cuidar do dinheiro


"Judas disse isso, não porque tivesse pena dos pobres,
mas porque era ladrão.
Ele tomava conta da bolsa de dinheiro e
costumava tirar do que punham nela".
João 12.6
Com exceção de Lucas, que cita o nome Judas uma única vez, todos os outros evangelistas citam-no duas vezes. Mateus e Marcos citam-no quando listam os 12 chamados para serem discípulos e quando esse procura os principais sacerdotes para vender o serviço de entregar-lhes Jesus. Lucas cita-o apenas para identificá-lo como traidor. João é quem o apresenta da maneira mais negativa das quatro narrativas.
A primeira vez que João fala de Judas, eles estão na casa de Lázaro. Foi nessa ocasião que Maria quebrou o vaso de precioso perfume sobre os pés de Jesus. João conta que Judas – aquele que estava para trair Jesus – fez referência ao ato de Maria como um desperdício, pois aquele perfume poderia ter sido vendido e o dinheiro dado aos pobres. Todavia, acrescenta João, a observação de Judas devia-se não ao seu cuidado para com os pobres, mas ao fato de ser ele um ladrão que tirava da bolsa de dinheiro do grupo dos discípulos – pela qual era ele o responsável – aquilo que nela era lançado.
A outra vez em que João se refere a esse discípulo é quando estão todos à mesa para a última ceia e, "tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que traísse a Jesus ..." Jesus anuncia que "aquele que come do meu pão levantou contra mim seu calcanhar ..., aquele a quem eu der o pedaço de pão molhado". "Tendo-o molhado, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. E, após o bocado, imediatamente, entrou nele Satanás. Então, disse Jesus: O que pretendes fazer, faze-o depressa."
Não considerando todas as explicações que se dão alhures sobre Judas ser um revolucionário que pretendia forçar Jesus a aceitar a posição de rei-libertador, sendo esse o motivo por que o traiu – explicações essas, ou tentativas de explicações, à parte, o fato é que Judas tinha um problema para lidar com o dinheiro. A referência de João a ele como alguém que não suportava uma homenagem feita a Jesus à custa do derramar de um perfume que poderia ter sido vendido por trezentas moedas de prata, a ponto de justificar o seu incômodo diante do ato de Maria, com uma pretensa preocupação com os pobres – tudo isso – dificulta ter dele uma visão de um revolucionário em busca de libertação política para sua gente.
O mais intrigante, contudo, é ser justamente ele o responsável por "levar a bolsa". Teria sido ele comissionado pelo próprio Jesus? Teria ele se oferecido para esse exercício? A questão é que, tendo recebido essa responsabilidade do próprio Cristo ou não, certamente ele era o responsável pela bolsa com o aval do Mestre, o qual a todos conhecia. Pelo que parece seus atos furtivos não eram desconhecidos nem mesmo dos outros discípulos.
Dessa posição aparentemente passiva de Jesus em relação aos assaltos de Judas à bolsa, salta ao olhar o entendimento de que o dinheiro era, de todas as riquezas, a menos importante para ele. Se a administração da bolsa tomava tempo e era trabalhosa, era preferível que os outros discípulos ficassem liberados dessa responsabilidade, a fim de cuidarem de fazer crescer e aumentar outras riquezas de valor real, tal como a divulgação do evangelho, a consolação dos que choram, a cura dos quebrantados de coração, a proclamação da libertação para os oprimidos e cativos sob qualquer espécie de dominação, o apregoar do ano aceitável do SENHOR e a tarefa de pôr sobre os que estivessem de luto uma coroa, em vez de cinzas, óleo de alegria, em vez de pranto, veste de louvor, em vez de espírito angustiado (Isaías 52).
Pensar que a Judas foi delegada a tarefa de cuidar dos assuntos ligados diretamente ao dinheiro pode fazer que se pense em muitas coisas: uma, mencionada acima, que o dinheiro é, na verdade, a menor das riquezas; outra, ligada, ao trabalho de Deus nos homens, concedendo-lhes a oportunidade de assumir uma atitude diferente, ao outorgar-lhes responsabilidades ligadas justamente às suas principais fraquezas. Pode-se falar, ainda, de que, conhecendo ele todos os corações humanos, mesmo assim, não antecipa seus deslizes, mas age para com os seres humanos com longanimidade; com conhecimento, sim, mas sem desconfiança, até os limites da própria traição, como fez Jesus.
Que responsabilidades Deus lhe outorgou? Pense nelas como atos de tratamento de Deus para com a sua vida.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

A casa ficou cheia do perfume


Ela derramou o perfume nos pés de Jesus.
E encheu-se toda a casa
com o perfume do bálsamo
João 12.3

Quando Jesus esteve nesse mundo, várias pessoas o seguiam, formando, muitas vezes, uma verdadeira multidão. Algumas dessas pessoas haviam sido chamadas nominalmente por ele mesmo para que o acompanhassem: eram os 12. A esse grupo restrito de discípulos que o seguiam mais de perto outras pessoas se agregaram. Para ambos os grupos, de modo especial para os 12, ele disse mais de uma vez que sua missão entre os homens era dar a sua vida a fim de resgatá-los e garantir-lhes vida eterna em comunhão com Deus, o Pai.
Essa mensagem, entretanto, chegava a ser insuportável para alguns de seus seguidores. Era assim para alguns, pelo muito que o amavam; para outros, pela esperança que nutriam de que ele assumisse a glória humana de – como seu rei – libertá-los da dominação estrangeira. Davam a entender, na verdade, que não compreenderam o que ele lhes dizia sobre sua missão.
Uma mulher chamada Maria, contudo, demonstrou ter compreendido a profundidade da missão de Jesus e a necessidade humana de que ele a cumprisse. Era ela irmã de Marta – que se esforçava com o fim de proporcionar a Jesus deliciosas ceias. Era também irmã de Lázaro, aquele cuja morte o comoveu e o moveu a chorar diante dessa realidade que ele veio para mudar através de sua própria morte. A este ele ressuscitou dos mortos, demonstrando seu poder e a autoridade que lhe fora delegada pelo Pai. Eram Marta, Maria e Lázaro: todos seus amigos pessoais.
Algum tempo depois do emocionante acontecimento em que ele chamou Lázaro de volta à vida, foi Jesus recebido em casa de seus amigos os quais lhe ofereceram um jantar. Foi nessa ocasião de estreita proximidade e comunhão com o Amigo, que Maria demonstrou o alcance de seu discernimento e de seu amor: "pegou um frasco cheio de um perfume muito caro, feito de nardo puro e o derramou nos pés de Jesus, enxugando-os com os seus cabelos, de modo que toda a casa se encheu daquele cheiro."
Quem entende um pouco de perfumes pode compreender a grandeza da atitude de Maria. Aquele ato constituía um verdadeiro ritual. De fato, um estudo da história dos perfumes mostra que, inicialmente, eles eram utilizados somente em rituais religiosos, quando eram queimados em oferenda à divindade. Só posteriormente passou a ser utilizado para outros fins.
Quando Maria derramou o perfume sobre os pés de Jesus, houve quem achasse o feito um desperdício. Mas o próprio Jesus advertiu que a deixassem guardar aquele ato para o dia do sepultamento dele. De fato, ela estava demonstrando sua compreensão das palavras ditas por ele tantas vezes, ao falar de sua missão.
Ao mesmo tempo, derramar o perfume significava a profunda adoração que ela prestava ao Mestre, reconhecendo-lhe da divindade, da mesma forma que os magos vindos do Oriente, por ocasião do nascimento de Jesus, trouxeram-lhe, entre seus presentes, perfumes.
Uma das coisas que mais chamam a atenção nessa atitude de Maria é o fato de ela reconhecer dele a divindade e prenunciar o seu sepultamento. Há algo de grandioso demais no Deus que dá a sua vida para resgatar a de seus amigos; no feito do Deus que permite que sua vida seja consumida, derramando-se como um perfume que se espalha no ar.
Maria expressava seu entendimento de que, tal como o perfume, somente a vida doada, entregue e derramada poderá encher a casa com seu delicioso aroma. Ela entendia que essa era a missão de Jesus ao vir ao mundo e compreendia, ainda, que ela, como discípulo dele, era chamada para imitar-lhe o exemplo, permitindo que sua vida fosse desgastada e consumida na mais profunda, sincera e completa adoração ao seu Deus.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Procurando pérolas finas



"O Reino do Céu é também
como um comerciante que anda procurando pérolas finas.
Quando encontra uma pérola que é mesmo de grande valor,
ele vai, vende tudo o que tem e compra a pérola.
Mateus 13. 45, 46

No texto acima, Jesus usa a metáfora do comerciante de pérolas no intuito de facilitar um pouco o entendimento de seus ouvintes acerca do Reino do Céu. Em seu discurso no sermão da montanha, ele dissera que a ansiedade em relação a coisas que estão fora de nosso controle, em geral, levam-nos a viver a vida por antecipação, cheia de pré - ocupações. Afirmou que, em vez de cultivar tal ansiedade, nossas buscas deveriam focalizar o Reino de Deus e a sua justiça, antes de tudo mais.

Mas o fato é que esse acerto na ordem de prioridades das coisas na vida está profundamente ligado àquilo que desejamos. Cada objeto de nossos desejos representa um tesouro, uma pérola valiosa. Passamos a vida procurando pérolas, pérolas finas, pérolas preciosas.

Há pessoas que têm uma vida afetiva confusa e tentam relacionar-se intimamente com muitas pessoas, simultaneamente. Todavia, em geral, a intimidade que alcançam com elas não é mais do que a do nível físico. No dia em que uma pessoa dessas encontra alguém cuja alma une-se à sua e descobre-se numa relação em que a intimidade alcança e ultrapassa o nível das emoções e atinge os lugares mais recônditos do seu ser, sua alma, seu espírito – nesse dia – são capazes de deixar cem relações superficiais, ou até mais, para usufruírem uma única – intensa e intimamente. Trata-se de alguém que achou uma fina pérola, de grande valor.

A metáfora aplica-se bem aos relacionamentos pessoais. Mas aplica-se também a todos os outros níveis de nossas vidas: carreira, pesquisas, projetos, crenças...

A parábola mencionada acima usa tal metáfora para falar de uma pérola que é mais preciosa do que qualquer outra fina pérola que já tenha vindo ocupar um bom lugar numa ordem certa nas prioridades de nossas vidas. A pérola é de todo preciosa e tão preciosa é que torna difícil dizer se a possuímos ou ela é quem nos possui. Para possuí-la ou ser por ela possuídos, seríamos capazes de entregar todas as mais finas pérolas que buscamos e adquirimos ao longo de nossas vidas: nossos relacionamentos preciosos, nossas frutíferas e dignas carreiras, nossas relevantes pesquisas, nossos projetos imprescindíveis, nossas crenças mais antigas...

A crise, a angústia, a grande questão de todo ser humano é essa: a necessidade, o desejo de achar a pérola de grande valor. O perigo é encontrá-la e não se dar conta disso e continuar atribuindo às outras coisas um valor maior do que elas realmente têm.
Não há nada mais precioso do que encontrar a pérola de grande valor. Não há nada mais precioso do que viver conscientemente nossa posição de cidadãos do Reino do Céu, entendendo que esse é o grande tesouro, a pérola de valor inestimável.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Eles é que se preocupam com essas coisas...


"Por isso eu digo a vocês: não se preocupem com a comida e
com a bebida de que precisam para viver nem com a roupa de
que precisam para se vestir. Afinal, a vida não é mais
importante do que a comida? E o corpo não é mais importante
do que as roupas? E nenhum de vocês pode encompridar
a sua vida, por mais que se preocupe com isso."
(Mateus 6.25 e 27)

Ouvi uma história uma vez em que um índio conversava com um branco e aquele perguntou a esse:
- Por que você corre o tempo todo e trabalha até ficar esgotado?
- Para assegurar-me de que, depois de minha partida, meus filhos terão onde morar e do que viver – respondeu o branco.
- Não procedemos assim – disse o índio – porque acreditamos que a mesma natureza que nos supriu em relação a essas necessidades também suprirá nossos filhos.
Há um trecho do sermão da montanha, no qual Jesus adverte aos seus seguidores que não se empenhem em acumular tesouros sobre a terra, porque aqui a traça e a ferrugem corroem e os ladrões roubam. Além disso – dizia ele – onde está o tesouro do ser humano aí, também, está o seu coração. Advertia ele, ainda, de que, quando os bens se tornam deuses sobre as pessoas, elas ficam com os seus corações divididos.
Ele bem que entendia que tal preocupação em ajuntar riquezas – como aquele branco esclareceu ao índio – é resultado da preocupação com o que se haverá de vestir, de comer e beber, com a preservação da saúde do corpo e com o alongar-se da vida.
Quando ouvi aquela pequena história do diálogo entre o branco e o índio, percebi sua sabedoria em entender que ajuntar tesouros onde esses são consumidos ou roubados é sinal de tolice. Tolice que advém da preocupação desesperada com a vida – mas tolice.
Sábio é perceber os limites de nossos poderes de controlar o que quer que seja. Não podemos garantir a preservação de nossos bens – nem os materiais, nem os relacionados com o nosso corpo, nem com o alongar-se da vida. Jesus mostrou que sábio é entender que Deus é quem veste a erva do campo, alimenta as aves que voam e muito mais faz por aqueles que crêem nele – os seus filhos.
Não nos inquietemos com tais pré – ocupações. Antes, ocupemo-nos em buscar, em primeiro lugar, o reino de nosso Pai e a sua justiça. Ele conhece nossas necessidades. Ser-nos-ão supridas por nosso zeloso Pai e Rei.
Estas preocupações são próprias daqueles que não entraram na relação de Pai e filho com Deus, na relação de servo do Rei Jesus. Eles é que se preocupam com essas coisas.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Sempre e nunca


"O fogo nunca se apagará no altar; deverá ficar sempre aceso."
(Levítico 6.13)

Esse é um texto bastante carregado de simbolismo, assim como todo o ritual de que fala o livro de Levítico. Tanto os aspectos concretos presentes nesse texto – fogo, altar – são tremendamente simbólicos, como também o são aqueles outros mais abstratos – o não apagar, o ficar aceso, o nunca, o sempre.

Não pretendo aprofundar a temática de que trata o livro. Apenas compartilho aquilo que é despertado em meu coração por todo esse simbolismo. E o que mais salta diante dos meus olhos está ligado ao aspecto abstrato do texto: o fato de que, no altar, o fogo estaria sempre aceso, nunca se apagaria. ‘Sempre’ e ‘nunca’.
O fogo no altar queimava as ofertas. As ofertas pelo pecado eram totalmente queimadas. E, ao queimá-las totalmente, o fogo se prolongava. Mas, ao final, só restavam cinzas. Cinzas que lembravam o arrependimento que moveu o coração do ofertante. Cinzas que lembravam o perdão concedido com base no sangue derramado, o qual, por sua vez, derramava paz no coração contrito.

Na verdade, não era o sangue do animal queimado em holocausto que quitava para com Deus a dívida do faltoso. Havia um outro – simbolizado por aquele –, sangue do Cordeiro que foi morto na eternidade, morto na história do homem. Esse, sim, era suficiente e necessário e válido: uma vida em lugar de outra vida - pleno perdão.

O fato do fogo nunca se apagar - mas ficar sempre aceso - faz a gente pensar no quanto o ser humano tem facilidade para errar.
Mas havia ofertas feitas em gratidão, adoração e que também contribuíam para o fogo manter-se aceso no altar. Essas outras ofertas eram queimadas apenas parcialmente.

Desse modo, o fogo que nunca se apaga faz a gente pensar na fraqueza e falibilidade humanas. Faz a gente pensar na necessidade e no benefício de uma postura de contrição contínua, de corações quebrantados, de arrependimento profundo e propiciador de recomeços. Faz a gente pensar na disposição de Deus em perdoar, na sua graça incomensurável.

Mas o fogo que nunca se apaga também faz a gente pensar numa postura de adoração, na gratidão como um estilo de vida, no reconhecimento da bondade e do cuidado de Deus como a força motriz e direcionadora de nossas ações e reações.
O fogo que sempre fica aceso faz a gente, ainda, pensar em perseverança, em constância, em longanimidade. Faz a gente pensar em ir ficando parecido com o nosso Pai, já que nele não há nem mesmo sombra de variação. Seus dons são irrevogáveis, suas promessas cumpridas cabalmente, sua palavra imutável, sua posição fiel e confiável.

O meu coração também é um altar e o fogo nele não pode nunca apagar. O fogo nele há de sempre arder.

l

terça-feira, janeiro 03, 2006

Graça, superabundante graça

"A terra, SENHOR, está cheia da tua bondade".
(Salmo 119.64a)

Há uma discussão entre algumas culturas quanto ao ponto do calendário em que realmente se inicia o ano novo. Para mim, o ano novo começou mais cedo do que de costume. Era o dia 21 de dezembro, quando, em minhas leituras bíblicas deparei-me com um texto que trazia uma verdade, muitas vezes já lida por mim, porém ainda não apreendida. Não até aquele dia. O texto dizia "a terra, SENHOR, está cheia da tua bondade" (Salmo 119.64a).

A filosofia que sempre caracterizou a minha maneira de olhar para a vida, para o mundo, para o ser humano, nunca foi muito como a daqueles que procuram ver o lado bom de tudo. Nunca gostei muito de síndrome de Polyana, a menina da novela que leva seu nome que, esperando ganhar uma boneca de presente, mas que em lugar disto ganhou um par de muletas, começou a alegrar-se pelo fato de não precisar delas.

Quanto a mim, olhava para o mundo sempre lembrando a queda do ser humano no pecado, a maldição resultante não só sobre ele e sua descendência, mas também sobre toda a natureza. O fato de que as melhores experiências da vida, ter filhos e gerenciar a Terra, haveria de ser feito em meio a dores e abundante cansaço é que enchia os meus olhos.
Naquela noite das minhas referidas leituras, todavia, senti que Deus me fazia relembrar e entender, de toda minha alma, talvez, pela primeira vez, que onde o pecado abundou, superabundou a graça.

Não podendo acreditar nos insistentes pensamentos, equivocados segundo minha perspectiva, de que houvesse gente boa no mundo, gente que realmente buscava o bem de outrem, e de que pudesse haver, na humanidade, qualquer esperança para ela mesma, resolvi nunca esperar nem tentar achar nada de bom por aí. Porque de fato não iria encontrar.

O que ocorre é que, decorrente de meu realismo naturalista, fui perdendo o entendimento da graça de Deus que faz a sua bondade encher a terra, ainda que seja ela uma terra caída em pecado e guardada para tempos de juízo e condenação.

É como João testemunhou sobre a Luz, o Logos: as trevas não lhe podem resistir. O sábio Salomão já tinha escrito que a luz do amanhecer surge justamente quando mais alta vai a madrugada, quando mais escura é a noite.

O profeta Jeremias exerceu o seu ministério no momento mais difícil que um profeta poderia fazê-lo. A profecia que vinha de Deus para ele anunciar ao povo era de ameaça e destruição e ele levava esta mensagem a eles exatamente quando essa mesma profecia estava sendo cumprida. Ele aprendeu uma estratégia para si mesmo e ensinou aos seus leitores e muita gente a tem praticado: "trazer à memória aquilo que pode dar esperança".
Conquanto tenha sido um profeta que exerceu o seu ministério em meio ao pranto, tinha uma atitude positiva.

Faltava-me aprender tal lição. E não se aprende isso a não ser como uma dádiva da operação do Espírito de Deus. Não há lugar onde o pecado que desgraçou a humanidade isente-a da graça de Deus. Isso é absolutamente paradoxal.

O ser humano des – graça – do tem oportunidade de experimentar a graça abundante de Deus.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Aquietai-vos e sabei


Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus.
O SENHOR dos Exércitos está conosco;
o Deus de Jacó é o nosso refúgio.
Salmo 46.10-11

Os autores do Salmo 46 ensinam que não há por que temer, mesmo diante de lutas e de provações. Descrevem uma imensa tempestade e contam de tempos de guerra que a tudo destrói. Convidam para buscar no SENHOR o refúgio em se habita seguro, por mais intensa que seja a tempestade, por mais rigorosa que seja a guerra.
Mas uma coisa é lutar em meio às tempestades que nos cercam e outra, muito diferente, é tratar com elas quando invadem nossos esconderijos secretos, os recônditos da alma e põem lama até a metade das paredes da casa que somos.
A tempestade que invade a alma é também instrumento de destruição. Quebra nossos tesouros antigos, dissolve os papéis de nossas lembranças, de nossos compromissos; mancha e embaça as nossas certezas e despedaça entradas e saídas, consumindo, assim, nossa liberdade – a possibilidade de ir e de vir.
Esse ambiente interior em nada difere da cidade sitiada, de muralhas rompidas, de estruturas destroçadas, com suas casas queimadas e pessoas aprisionadas e feridas.
Quando a cidade esmagada é o mundo interior – os nossos próprios corações –, quando o vendaval da tempestade escurece e torna escorregadio os lugares desconhecidos do espírito humano, já não é um refúgio que nos pode acalentar, mas é a fortaleza que vem como a esperança da alma.
Enquanto o refúgio é o lugar seguro para guardar-nos da guerra e da tempestade ao nosso derredor, a fortaleza é a segurança que age de dentro para fora, instalando, na base mais profunda do ser, a esperança como âncora da alma.
E a âncora não falha: desempenha sua função de conferir estabilidade. Ela não interfere na tempestade, não reduz a força nem a altura das ondas; não torna límpida a correnteza nem diminui a velocidade dos ventos. A âncora da alma – a esperança instalada pela fortaleza – interfere mesmo é naquele que enfrenta a tempestade, firmando, confirmando e fortalecendo o aflito e atribulado.
A razão de tudo isso é que há uma voz que fala do centro da fortaleza; uma poderosa voz que supera o som das muitas águas, o ressoar do vento tempestuoso e o estrondear de armas aterradoras . É isso o que ela diz: "Aquietai-vos". "Eu sou Deus"- estou no controle. "Faço cessar a guerra, quebro o arco e despedaço a lança, queimo os carros no fogo". Por mais intensa que seja a escuridão da noite tempestuosa, assegura a voz que vem do centro da fortaleza: "Estou convosco, aquietai-vos, estou convosco".

segunda-feira, dezembro 19, 2005

O lugar seguro em tempos de tempestade


Ainda que terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares, não temerei...
Salmo 46.2

Não são muitos os tsunamis na história do nosso planeta. Felizmente. Felizmente, também, as tempestades que fazem estremecer nossas almas também não são muitas. Todo marinheiro, todavia, sabe que as pequenas tempestades são muito mais comuns.
O Salmo 46, da autoria dos filhos de Coré, certamente não está tratando de uma lista de regras para ajudar um marinheiro que sai a navegar. Na verdade, os autores buscam, no contexto das tempestades que vêm sobre os marinheiros que estão no mar, uma metáfora para fazerem alusão às tempestades que alcançam a alma humana.
São muitas e de diferentes intensidades as tribulações que enfrentamos, as tempestades que recobrem os céus dos mares em que navega a nossa alma. Há, inclusive, dias e noites em que as altas ondas são tão bravias que nos fazem pensar que vamos sucumbir sob sua força. Há momentos em que o chão sob nossos pés se transtorna e mais parece areia movediça. Há situações em que as águas tumultuam e expressam grande fúria, lançando-nos para frente e para trás. Os montes se abalam e estremecem – justamente os montes que metaforizam lugar de segurança, o lugar de onde é possível ver o inimigo antes que esse se aproxime demais. Justamente os montes que proporcionam o descanso do tempo nos vales... justamente eles, os montes, abalam-se e estremecem, abrindo-se em fendas perigosas que darão origem aos vales de sombra e de morte.
Na verdade, quem observar com atenção verá que, na vida, há mais tempos tempestuosos do que tempos de calmaria, simplesmente porque há um dinamismo em tudo que existe, qualquer que seja sua ordem, como parte de um grande plano que se encontra em execução. O importante é estar consciente dessas coisas e preparado para elas, correndo para o refúgio e fortaleza que é o SENHOR.
Não importa o tamanho da tempestade, nem a altura das ondas. Não temeremos, porque ELE é socorro bem presente nas tribulações.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Meu refúgio e minha fortaleza



"Ainda que os montes que estão
no seio dos mares se abalem,
ainda que as águas tumultuem e espumejem
e na sua fúria os montes se estremeçam..."
Salmo 46.2
A instabilidade que se percebe na natureza é, provavelmente, resultado do dinamismo que está presente nas leis a que ela obedece, as quais têm, justamente, a função de conferir-lhe estabilidade.
Tudo no universo existe num dinamismo tal que, visto microscopicamente ou pelos menos mais de perto, nas unidades de seus eventos, mais parece a presença do caos. Mas o próprio caos não é ‘caótico’ no sentido de não possuir ordem.
Alguém poderia pensar que os filhos de Coré, na composição do Salmo 46, estivessem refletindo sobre a natureza e sua instabilidade; sobre as relações internacionais e sua instabilidade. Todavia, o Salmo trata da estabilidade e segurança que há em Deus: refúgio e fortaleza. É por isso que as idéias dos salmistas vêm na seqüência em que as encontramos.
Já de início, há uma assertiva "Deus é nosso refúgio e fortaleza". Como se vê, o olhar do compositor está firmado nos atributos de Deus, na segurança que disto procede, tanto da perspectiva interna quanto externa. As conclusões que seguem a assertiva inicial nela se baseiam.
Um perigo que se corre na leitura desse salmo é o de ignorar a palavra ‘portanto’ que estabelece uma relação gramatical de coordenação e não de subordinação entre as orações ‘Deus é o nosso refúgio e fortaleza... portanto não temeremos...". A palavra destacada é uma conjunção que enuncia uma conclusão (não temeremos), baseada no fato de que Deus é nosso refúgio e fortaleza". E por que alguém correria o risco de ignorar tão importante palavra? Por causa de uma outra conjunção que o salmista também usa, "ainda que", na seqüência do texto. Essa sim, cria um laço de subordinação desta oração em relação a "não temeremos". Outras palavras que teriam traduzido muito bem a idéia seriam embora ou conquanto. Tanto essas como as que aparecem aqui em epígrafe, falam de concessão, que o dicionário explica como sendo uma indicação de uma oposição ou restrição ao que se encontra expresso na oração subordinante. Diante dos fatores enumerados, o esperável é que muito se temesse, mas os salmistas dizem ... não ficaremos com medo.
Montes que se abalam, águas que tumultuam e espumejam, montanhas que estremecem são elementos normais de uma natureza que se transforma continuamente, num movimento dinâmico e condizente com suas próprias leis. Nesses elementos atuam forças muito maiores que aquelas que caracterizam os ainda mais dinâmicos e instáveis humanos mortais. Não temer é uma atitude daquele cujos olhos fixam-se não na turbulência dos montes e dos mares, mas no Deus que é refúgio – lugar onde alguém se abriga para fugir do perigo – e fortaleza – constância, segurança e solidez.
Isto posto, é inevitável concluir que não foi do meio da turbulência que os compositores do salmo 46 vislumbraram a Deus, como se estivessem sendo motivados a correr para o abrigo por causa do medo causado por rumores que vinham de todos os lados. Antes, foi do recôndito aconchegante e seguro, de dentro do lugar de refúgio, das alturas da fortaleza – de lá – foi que os salmistas contemplaram o caos e disseram: conquanto tudo se transtorne, nada temeremos.

terça-feira, novembro 08, 2005

Mas a torrente secou...



Então, Elias, o tesbita, dos moradores de Gileade, disse a Acabe:
Tão certo como vive o SENHOR, Deus de Israel, perante cuja face estou,
nem orvalho nem chuva haverá nestes anos, segundo a minha palavra.
Veio-lhe a palavra do SENHOR, dizendo:
"Retira-te daqui,
vai para o lado oriental e esconde-te junto à torrente do Querite, fronteira do Jordão.
Beberás da torrente; e ordenei aos corvos que ali mesmo te sustentem".
Foi, pois, e fez segundo a palavra do SENHOR;
retirou-se e habitou junto à torrente de Querite, fronteira ao Jordão.
Os corvos lhe traziam pela manhã pão e carne, como também pão e carne ao anoitecer;
e bebia da torrente. Mas, passados dias, a torrente secou, porque não chovia sobre a terra.
I Reis 17.1 a 7

Acima lê-se a narrativa de um encontro entre o rei Acabe e um dos profetas mais conhecidos da história dos judeus. A narrativa conta o fim de uma conversa do profeta com esse rei cujas ações vinham demonstrando um desvio em relação às crenças de seu povo. Nessa conversa, o profeta anuncia ao rei que, em conseqüência de suas ações, aquela nação sofreria uma ação disciplinadora da parte de seu Deus.
Lendo esse texto em busca de edificação espiritual, não pude deixar de notar determinados pontos que me pareceram muito relevantes, como também de inferir algumas instruções que são preciosas para minha vida:
1) "Tão certo como vive o Senhor" - as palavras anunciadas pelo profeta não são dele mesmo. Ele as ouviu de um Deus que vive. E esse fato - o de que ele é um Deus que vive - não é mera pressuposição do profeta. Tão certo quanto Deus vive, aquilo que suas palavras anunciam acontecerá. Quando, mais tarde, de fato, aconteceu, todos podiam saber que o Deus que falou ao profeta era mesmo um Deus que vive.
2) "Deus de Israel" - o anúncio de que Deus agiria de modo disciplinador não era um sinal de que ele tivesse deixado de ser o seu Deus. Pelo contrário: era um ato disciplinador e não ato de vingança. Ele os disciplinaria exatamente para mostrar-lhes que ele se importava com o modo como vivam. Não lhes era indiferente.
3) "perante cuja face eu estou" - isso é o que pode explicar o poder que se evidencia na vida desse profeta. A vida daquele que está perenemente perante a face de Deus não pode ser menos do que espetacular. Mas, pela mesma razão, sua vida causava grande impacto sobre a vida de outras pessoas, além de ser motivo de incômodo para os que servem ao reino da morte. Elias pertence ao reino do Deus que vive. Estar perante a face de Deus é usufruir da possibilidade de saber de si mesmo, de alcançar consciência da própria identidade. Isso se deve ao fato de que, quando Deus criou o homem, ele o fez à sua imagem e à sua semelhança. Estar perante sua face é esquivar-se da crise resultante da ignorância acerca de si mesmo, pois, sendo nós a sua imagem, contemplar a face dele é conhecer nossas origens e descobrir quem somos nós. De fato, é voltar à posição singular na qual encontramos respostas para nossas indagações mais profundas acerca da pessoa que somos. Essa é a razão porque o profeta tem a força e a firmeza que suas palavras demonstram. O profeta é a imagem e semelhança de seu Deus.
4) "nem orvalho, nem chuva durante três anos" - para um povo que habitava a região da Palestina, não ter chuva pelo período de três anos representava uma verdadeira catástrofe. E, embora estivessem acostumados a aproveitar o orvalho especialmente nos períodos de seca, o profeta acrescenta: "nem orvalho". As pessoas haveriam de comer e de beber o que já tinha sido colhido, o que já tinha sido ajuntado. Depois disto, a maior certeza era a morte. Deus é severo. Não é de brincadeira. O seu povo é obstinado em sua rebeldia. E o seu profeta mantinha a postura de quem estava constantemente perante a face do Deus vivo.
5) "segundo a minha palavra" - essa é, de fato, uma expressão muito forte na fala do profeta. Ele conhecia bem a quem estava servindo. Sabia que seu Deus honraria a palavra de seu profeta. Nenhum de seus termos estava em insegurança. Nessa hora, Nessa hora, a palavra do profeta é a palavra do seu Deus e, portanto, infalível.
6) "Veio-lhe a palavra do Senhor" - isso além de reafirmar o fato de que Deus está vivo mesmo, mostra que são dele as iniciativas. Ele está na posição de SENHOR. Sua fala é inteligível e o seu profeta o compreende. Ele é um Deus pessoal que se comunica direta e pessoalmente com o seu profeta, seu servo. Mas sua fala também cria oportunidade para que a fé de seu servo se reafirme, porque dá ordens e faz promessas. Manda-o para uma região onde há uma fonte de água (mas que em breve deverá secar-se) e ficar à espera da providência do alimento que virá de forma bastante incomum (trazida por corvos ordenados por Deus a sustentarem o profeta).
7) "Foi, pois, e fez segundo a palavra do SENHOR" - por mais estranha que fosse a ordem do SENHOR, o seu servo - em perfeita interação com ele - reage de forma a mostrar sua confiança na promessa sobrenatural de Deus e sua dependência absoluta dele. Não questiona. Não refuta. Obedece. Não em parte, mas completamente, 'segundo a palavra do SENHOR'. Está pronto a obedecer de imediato, sem vacilar.
8) "Os corvos lhe traziam pela manhã pão e carne, como também pão e carne ao anoitecer; e bebia da torrente" - um cardápio simples, mas completo. Ele dá o pão para cada dia, suprindo as mais básicas necessidades de seus filhos. Na medida: sem sobrar se sem faltar, pela tarde e pela manhã. Deus conhece a estrutura daqueles que ele mesmo arquitetou e construiu. Cumprindo cada parte de sua promessa. Não bênção pela metade. Além disso, dispõe de todos os elementos de sua criação. Tudo lhe pertence e está a seu serviço.
9) "Mas ... a torrente secou" - findou-se esse tempo na vida do profeta, durante o qual ele esteve vivendo de si para si mesmo, numa postura passiva, de total dependência. Como disse o sábio Salomão, há tempo para todo propósito debaixo do sol. Houve um tempo para o profeta ficar à mercê do inteiro cuidado de Deus que supria totalmente suas necessidades através de meios externos ao profeta, mas agora ele está no limiar de um tempo em que ele será usado para suprir a necessidade de outros. Entre esses dois momentos está a fonte que seca. A fonte seca e isso prova a fé do profeta que aguarda novas orientações e novas promessas de Deus. Haverá Deus de continuar a suprir suas necessidades mais básicas agora, justamente agora, quando a seca é mais intensa e quando a terra nada produz e a fome se multiplica nas casas? Mas se o secar da fonte representa um momento de prova da fé que o fará continuar dependente de Deus, representa também a confirmação de Deus para com a palavra do profeta dirigida ao rei. De fato, tão certo como vive o Senhor, a chuva não veio, a fonte secou. E então o profeta há de sair desse retiro e ir ao encontro das pessoas que sofrem porque todas as fontes secaram. É a hora quando Deus lhe diz: ‘Vai à cidade de Sarepta..."
É inevitável perceber que o profeta de Deus anuncia sua palavra e, às vezes, trata-se de uma palavra de disciplina para com aqueles a quem Deus quer reaproximar de si mesmo. O calor dessa ação poderosa de Deus, produz efeitos que atingem também ao profeta. Ele não está imune às dores que advêm das ações disciplinadoras de Deus para com aqueles que cercam o profeta. De fato, a maior parte dos sofrimentos que se experimenta aqui, neste lado da eternidade, são meras conseqüências de viver-se num mundo atingindo pela queda no pecado. Assim como se deu com o profeta, não estamos livres das conseqüências de ações de pessoas rebeldes contra Deus, mas estamos sobrenaturalmente protegidos de seus efeitos. A 'vara' de Deus sobre os que insistem em rebelar-se contra ele, tem suas ressonâncias sobre mim. Mas também, como aconteceu com o profeta, devo estar disposta a obedecer-lhe incondicionalmente, por mais absurdas que me pareçam suas ordens e até mesmo suas promessas. É isso que me levará a desfrutar da poderosa ação de Deus, que é SENHOR sobre toda a natureza, suprindo-me nas mais básicas de minhas necessidades.
E quando a fonte secar, será sábio agir como agiu o profeta: sem queixumes, sem lamentações. Os lugares mais promissores podem tornar-se em alvos de ataque, visados por inimigos. Será a oportunidade para trocar a solidão do lugar seguro por aqueles onde estão pessoas necessitadas às quais Deus abençoará por meu intermédio.
Com Deus, a vida não é uma rotina interminável, carregada de mesmices. Pelo contrário: Deus transforma nossas vidas em grandes aventuras cheias de novidades.

quinta-feira, novembro 03, 2005

Conversando com o Pastor das ovelhas

Eu sou o pastor das ovelhas. Sou o bom pastor.
Eu conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem.
Eu as chamo pelo nome elas me seguem,
porque conhecem a minha voz.
Eu sou a porta das ovelhas.
Quem entrar por mim achará pastagens.
Encontrará liberdade para ir e vir.
João 10 (paráfrase)

Inicio a grande aventura de seguir, como ovelha, ao meu Bom Pastor que, ao abrir a porta do aprisco, conduz-me para fora – para as boas pastagens, para o exercício físico e para teste disciplinar; para as águas frescas e para aprender a andar sempre nos caminhos das justiça. A cada dia, reinicio essa aventura e ela é, em cada uma das vezes, inimaginavelmente nova.
Aprendo, desde cedo, a segui-lo mesmo para os vales sombrios, onde a sua presença é ainda mais sensível e também mais urgente e a disciplina é fundamental. Descubro que nesses vales é que as águas são incrivelmente frescas, como em nenhum outro lugar. É ali que a paisagem tem um encanto tal que eu bem poderia dizer que é um verdadeiro espetáculo, um show de beleza indescritível.
Está-se desenvolvendo o processo de aprender a encarar o adversário de frente, sem, todavia, estabelecer qualquer relação com ele. Sento-me à mesa do meu Pastor, em íntima comunhão com ele. Sua presença é deliciosa e ele manda que eu seja servida do manjar cujo sabor as palavras não dão conta. Sou ungida com óleos tais que refrescam desde a superfície de minha pele até os ressecamentos mais profundos de minha alma. Ao servir a minha taça, enche-a até transbordar. Parece mesmo fabuloso que tudo isso se dê perante os olhos de quem se fez meu inimigo e que muito se desagrada da cena que assiste. Assiste furioso, mas impotente: estou à mesa de meu Pastor.
Cada dia, torno a constatar que esse é mesmo o Criador que viu sua obra de arte quebrar-se e parecer arruinada, mas que é Todo-Poderoso o suficiente para conceder à minha pequena e frágil alma a graça de uma existência substancialmente livre e ousada, cercada de bondade e misericórdia, num mundo que jaz no maligno. Mas o melhor de tudo isso é saber que assim será até aquele dia quando, mais que sua hóspede de honra, instalar-se-á a adoção, o meu estabelecimento definitivo na posição de filho na casa onde passarei a habitar por dias que não terão fim.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Renovação paulatina

Pouco a pouco, os lançarei de diante de ti, até que te
multipliques e possuas a terra por herança. Não
os lançarei de diante de ti num só ano, para que
a terra se não torne em desolação e as feras
do campo se não multipliquem contra ti.
Êxodo 23.30-31

O texto em epígrafe é parte das orientações dadas a um povo que estava sendo tirado de uma terra onde tinham sido escravos por mais de 400 anos. Através dessas palavras, seu Deus lhes faz uma promessa de desocupar a terra que já lhes pertencia desde antes de seus anos de escravidão e que fora ocupada por outros povos. Todavia, esclarece que não vai desocupá-la toda de uma vez, mas há de fazê-lo paulatinamente, na medida que eles se fossem multiplicando. Caso contrário, a terra poderia ser invadida por feras.

Essa narrativa me faz lembrar de uma coisa que ouvi, certa vez, de um amigo psicólogo. Ele dizia que, quando lidava com situações em que as pessoas estavam inseridas em crises muito intensas e iniciadas já há muito tempo, as terapias nunca visavam a extinguir abruptamente tais crises. A razão é que, quando as pessoas lidam há muito tempo com situações que absorvem seu tempo, sua atenção e sua energia, elas vão-se tornando dependentes de tais crises. Extingui-las, abruptamente, seria o mesmo que retirar-lhes a base de sua sustentação, o motivo pelo qual, em última análise, elas vivem. Desse modo, o terapeuta deveria trabalhar no sentido de conduzir essas pessoas a encontrarem novas fontes de motivação para a vida. E, somente, quando coisas novas fossem ocupando o espaço em suas mentes e corações, é que poderiam ir desocupando-se das antigas ocupações. É incrível pensar nisso. Existem pessoas que são sustentadas pelas mesmas coisas que as atormentam. Lembro-me de um trecho de um poema barroco, intitulado "A uma ausência" do escritor português, Antônio Barbosa Barcelar, que diz justamente isso:

"Sinto-me sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo, que me alenta,
O mal, que me consome, me sustenta,
O bem, que me entretém, me dá cuidado"

De fato, Deus conhece a estrutura do ser humano. É isso que somos. Nosso ser não é mais que uma ausência. Ocupamo-nos desesperadamente das coisas que tocarem as nossas vidas. Às vezes, algumas delas tocam nossos corações, consumindo-nos e dilacerando-nos. E, no entanto, não buscamos extingui-las, porque sabemos que o vazio, a ausência, é pior que qualquer outro mal. Não sabemos viver uma vida sem propósito. Mas há propósitos que queimam como fogo, enquanto insistimos em pensar que eles apenas nos alentam.
Eu entendo que é por isso que, quando encontramos em Deus o grande e único propósito que nos sacia com o bem verdadeiro, ele nos conduz, daí em diante, num tratamento que varia de uma para outra pessoa, da perspectiva temporal. Conquanto a obra de Deus no ser humano seja plena desde o primeiro encontro com ele, há uma caminhada a ser feita, durante a qual o Espírito dele vai enchendo a vida da pessoa de fruto e livrando-a dos ranços oportunistas e parasitários de uma vida velha. Se pensarmos bem, às vezes não temos, para com as pessoas, nem com nós mesmos, a mesma paciência que vemos em Deus.

Quando o povo, que fora libertado de sua escravidão, foi levado à terra que outrora era deles e agora voltaria a ser, eles tiveram que aprender a sabedoria de esperar a desocupação paulatina da terra, a qual iria acontecer na mesma medida em que fossem se multiplicando. Tomar posse da terra envolveria um processo de dupla face. Por um lado, era preciso que a terra fosse desocupada; por outro, era preciso crescer. E tudo isso num dinamismo tal que fosse capaz de impedir a acomodação na situação de crise.

Esse processo me ensina muitas coisas: É preciso saber quem sou, saber que sou distinto daquilo que, porventura, invadir a minha terra, o meu espaço, a minha vida, seja lá o que for. É preciso, ainda buscar ocupar a herança que me foi dada, o que farei na mesma proporção em que aprender a despir-me do que cheira à antigüidade, na mesma proporção em que aprender a despedir-me dos fantasmas que se negam como tais, na mesma proporção em que valores novos passam a encantar o meu olhar.
É, assim, através deste processo, que vou deslocando o meu investimento de tempo, atenção e energia para as coisas que são totalmente novas.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Sendo servido ao servir


Então, lhe veio a palavra do SENHOR, dizendo: Dispõe-te, e vai a Sarepta,
onde ordenei a uma mulher viúva que te dê comida.
Então, ele se levantou e se foi a Sarepta;
chamou a viúva e lhe disse: Traze-me, peço-te, uma vasilha de água para eu beber.
Traze-me também um bocado de pão na tua mão.
Porém ela respondeu: Tão certo como vive o SENHOR, teu Deus, nada tenho cozido;
há somente um punhado de farinha numa panela e um pouco de azeite numa botija;
vou preparar esse resto de comida para mim e para o meu filho;
comê-lo-emos e morreremos.
Elias lhe disse: Não temas;
assim diz o SENHOR, Deus de Israel: A farinha da tua panela não se acabará,
e o azeite da tua botija não faltará, até ao dia em que o SENHOR fizer chover sobre a terra.
Foi ela e fez segundo a palavra de Elias; assim, comeram ele, ela e a sua casa muitos dias.
Da panela a farinha não se acabou, e da botija o azeite não faltou,
segundo a palavra do SENHOR, por intermédio de Elias. I Reis 17.8-16

A situação inicial
A fonte que supriu Elias durante os dias iniciais da seca que sobreveio à sua terra secara. Durante aqueles dias, o próprio Deus encarregou-se de suprir o seu profeta de alimento, enviando-a por meio de corvos. A


A nova ordem

Então, a palavra do Senhor veio novamente ao profeta, dando-lhe uma ordem, humanamente questionável, pois não havia água, não havia comida: "sai de onde estás, da tua terra (da região de Querite, a leste do Jordão, pouco distante do Mar Morto) e vai à Sarepta, que pertence a Sidom." O profeta não questiona. Apenas obedece. Parte para uma longa viagem. Não havendo água, nem comida, não se sabe como ele será sustentado durante a viagem, pois não é mencionado no texto. Nada sabemos e, provavelmente, nem mesmo o profeta o sabia. Era uma questão de confiança.

Em meio a escassez

Ao chegar à cidade, muito provavelmente, foi reconhecido como profeta, por causa de seus trajes característicos. E, tão logo viu a viúva, pediu água. Acrescentou outro pedido: pão. A resposta da viúva foi surpreendente: "não tenho nada pronto. Mas tenho um punhado de farinha e um pouco de azeite. Estava ainda agora indo preparar a última refeição para mim e para meu filho. É tudo que tenho. Comeremos e depois moremos." Na seqüência do diálogo, o profeta, lhe diz que preparasse sim, mas para ele primeiro. Só depois haveria de preparar para ela e para seu filho. Depois de teres dado prioridade de servir a Deus, que resolveu suprir a necessidade de seu profeta através de ti - esclarece o profeta (porque não se tratava de um ato de egoísmo de sua parte) - "verás que o azeite não acabará na botija, nem a farinha na panela."

Escolhendo entre o que se vê e o que se não vê

Era uma ordem difícil de obedecer, seguida de uma promessa difícil de alguém querer correr o risco de perder. O raciocínio lógico conduziria ao pensamento de que ela poderia fazer uma última refeição, da qual tinha certeza e, com a mesma certeza, aguardar a morte para si e para seu filho. Ou, ela poderia abrir mão de comer com seu filho aquela última refeição que seus olhos provavam estar lá, numa atitude de fé na promessa de que não morreriam de fome, pois o suprimento viria da parte de Deus para muitos dias.
Ela preferiu abrir mão de que via em benefício da esperança de alcançar o que ainda não se via. Foi, fez como o profeta orientou. E, de fato, a promessa se cumpriu: a farinha não se esgotou da panela, nem o azeite da botija.

Aprendendo a lição do texto

Embora esse texto seja carregado de simbolismos, não os quero explorar aqui. Quero guardar, desta vez, a mensagem que salta do texto: Deus, comprometido com seu servo profeta, comprometido em sustentá-lo em dias de seca e de fome na terra, abençoa com fartura uma viúva pobre, cuja esperança era comer a última refeição com seu filho e sentar à espera da chegada da morte, sem nenhuma alternativa. Muitas lições essa narrativa traz ao meu coração.

1) Escolher com sabedoria e motivado pela fé: Aquela viúva poderia ter preferido optar pela comida certa, na frente dos seus olhos para não antecipar a inevitável morte – afinal ela pertencia a outro povo que não servia ao mesmo Deus do profeta –, e não faltariam outras pessoas a quem Deus pudesse abençoar para sustentar o seu profeta. Fico pensando que esse é um princípio característico do modo de Deus agir. Muitas vezes a oportunidade de ajudar e de servir bate à minha porta. Preciso estar atenta para não deixar passar tal oportunidade de ver Deus suprindo abundantemente minhas necessidades com o objetivo de suprir a necessidade de seus enviados. Não posso deixar de perceber que, primeiro Deus ordena a doar, espera minha resposta de confiança na palavra dele, para então, e tão somente então, fazer transbordar a minha dispensa.

2) Repartindo o pouco e vendo-o tornar-se no suficiente: Por outro lado, não posso deixar de observar que Deus não escolheu uma pessoa abastada para suprir a necessidade de seu profeta, tornando-a, ainda mais abastada (certamente, para que a tal pessoa abastada jamais gabasse de si mesma, dizendo que foi abençoado por dar daquilo que já era seu - como se o que ela tinha já não fosse uma dádiva de Deus). A viúva doou de sua pobreza, do pouco que tinha.

3) Reconhecendo a soberania de Deus na escolha de seus instrumentos: Ao olhar o texto por esse ângulo, o que percebo é que o profeta não questionou a Deus, com soberba, achando que fosse um absurdo Deus mandá-lo a uma terra estrangeira para ser sustentado por uma viúva à beira do desespero. O fato é que ninguém é miserável demais, ninguém é tão pobre que não possa ser usado por Deus para abençoar. Além disso, quem determina o instrumento de bênção é o abençoador, não o abençoado. Infelizmente, ou felizmente (quem sabe?) geralmente as pessoas de menos posses são as que têm coração mais aberto para abençoar a outros, mesmo em face de grande pobreza.

4) É preciso aprender a honrar os enviados de Deus: Esse episódio é citado por Jesus muitos séculos mais tarde, para dizer que um profeta não tem honra em sua própria terra. É assim que ele diz: "quantas viúvas havia em Israel naqueles dias? Mas a nenhuma delas foi enviado o Elias, senão à viúva de uma terra estrangeira, à viúva de Sarepta, em Sidom". Espero que Deus me ajude a não desonrar aqueles que são levantados por ele para falar em minha terra, no meu contexto, à minha vida.