terça-feira, julho 04, 2006

Eu, porém...

"Tinha eu quarenta anos quando Moisés, servo do SENHOR,
me enviou de Cades-Barnéia para espiar a terra;
e eu lhe relatei como sentia no coração.
Meus irmãos que subiram comigo desesperaram o povo;
eu, porém, perseverei em seguir o SENHOR, meu Deus."
Josué 14.7

Todos que já leram sobre a libertação do povo de Israel do Egito conhecem a história de Josué e de Calebe. Enquanto toda a geração considerada adulta por ocasião da saída do Egito não ultrapassou os limites do deserto e não experimentou o sabor de pisar e tomar posse da terra prometida, esses dois homens constituíram exceção. Em que diferiam dos demais?

O livro de Números, nos capítulos 13 e 14, narra o envio de doze dos príncipes do povo, um de cada tribo, para espiar e saber sobre a terra para a qual se dirigiam. Após o regresso, dez deles disseram terem visto lá "gigantes", acrescentando: "éramos, aos nossos próprios olhos, como gafanhotos e assim também o éramos aos seus olhos"; "Não poderemos subir contra aquele povo, porque é mais forte do que nós". Calebe, ao contrário – e confirmado por Josué – "fez calar o povo perante Moisés e disse: Eia! Subamos e possuamos a terra, porque, certamente prevaleceremos contra ela". Por qual razão um grupo se sentia tão impotente, enquanto o outro se sentia tão confiante após regressarem da mesma missão?

A diferença entre os dois grupos era o objeto de seus olhares. Enquanto os dez olhavam para os gigantes e, conseqüentemente, descobriam-se pequenos como gafanhotos, Calebe olhava para o tamanho de seu Deus e Josué afirmava: "Se o SENHOR se agradar de nós, então, ele nos fará entrar nessa terra e no-la dará. Tão-somente não sejais rebeldes contra o SENHOR e não temais o povo dessa terra; retirou-se deles o amparo; o SENHOR é conosco; não os temais"...

Essa é a idéia de fé. Em que insistimos em colocar nosso olhar: no visível ou no invisível? Mais tarde, ao comentar esse episódio, Calebe – já com seus 85 anos – ainda se lembra de ter relatado "como sentia no coração". Não relatou conforme atestavam os seus olhos, mas conforme cria em seu coração. Essa é a grande diferença.

E o Deus que honra nossa confissão de fé confirmou a palavra de ambos os grupos. O grupo dos dez e quantos mais creram neles diziam: "não poderemos entrar, não haveremos de vencer"... Essa palavra nada possuía de místico, mas era o fruto daquilo em que criam: "não somos capazes e certamente não poderemos derrotar os inimigos". Deus confirmou a confissão deles, dizendo: "De fato, não entrarão". E nenhum deles adentrou a terra prometida.

Por outro lado, Calebe e Josué, conquanto soubessem que os obstáculos eram grandes e que haveriam de lutar contra inimigos maiores que eles, não fixaram nisto os seus olhos. Antes olharam para a grandeza de seu Deus e CRERAM NELE para dar-lhes a vitória.

E o Deus que honra nossa confissão de fé confirmou a palavra desses dois homens – que diziam "o SENHOR é conosco, ele nos fará entrar nessa terra e no-la dará". De toda aquela geração adulta que saiu rumo à terra prometida somente Calebe e Josué entraram nela e a possuíram.

Ainda hoje ecoa a expressão da fé que teve Calebe no Deus que honrou a sua confissão; da fé, cuja esperança Deus sustenta; da fé que age confiando no Deus invisível em lugar de deixar-se guiar pelas tão visíveis circunstâncias; da fé naquele que traz à existência o que jamais existiu, que traz à visibilidade o objeto da esperança sabedora de que aquilo que se aguarda pela fé nunca foi menos real pelo fato de que ainda não podia ser visto.

Aqueles dois deixaram o exemplo de que é necessário ser muito firme nas próprias convicções, deixaram o exemplo de que não é sábio seguir a multidão porque nem sempre a maioria está com a verdade e de que aquilo que vêem nossos olhos nem sempre pode ser a base de nossas ações. A boca sempre fala do que está cheio o coração. Cuidemos para que ele esteja cheio de confiança no Deus Todo-Poderoso, porque ele honra a nossa confissão.

quinta-feira, junho 22, 2006

Um altar para um encontro com Deus


...não apresentarei ao SENHOR, meu Deus,
ofertas que não me custem nada.
Assim, Davi comprou a eira e os bois.
...o SENHOR se tornou favorável ...
2 Samuel 24. 24-25

Tanto os livros de Samuel como parte dos livros das Crônicas contam a história do rei Davi. Samuel apresenta-o como pecador, falho, pai de família ausente, praticante da poligamia, enfim, apresenta o rei Davi – homem. Isso é muito relevante se lembrarmos que Samuel é o último dos juízes, e foi substituído por Saul, o primeiro rei, o qual foi sucedido por Davi, chamado por Samuel de "homem segundo o coração de Deus".
O capítulo 24 do Segundo Livro de Samuel narra mais uma das experiências do rei Davi. É assim que Samuel encerrará sua narrativa sobre o rei Davi: o homem pecador, o pecador quebrantado e contrito, arrependido e perdoado.
Provação, tentação e queda
A narrativa começa com a apresentação de um grande problema: Deus está irado com Israel e incita seu rei, Davi, a levantar o censo de Israel e de Judá. Diante do levantamento do censo, Davi será tentado a assumir uma atitude de soberba, orgulho e vaidade.
Tiago (1.12-13) usa uma palavra grega que ora é traduzida por provação, ora por tentação (peiramós). E o escritor é enfático em esclarecer que Deus não tenta ninguém. No entanto, ele prova os seus. A prova muitas vezes vem a existir em um coração tomado do pendor da carne que dá para a morte. Ou seja, diante de algumas provas, a pessoa prefere entregar-se a seus próprios desejos, por vezes carnais, inimigos de Deus. É quando então, diante da provação seus desejos caídos, pecaminosos o tentam.
O diabo tenta. O coração do homem caído tenta. A tentação ou vem de dentro da própria pessoa ou vem de Satanás e, nesse caso, trabalha em cooperação com o coração do ser humano caído. Ele sozinho não tem poder de forçar à prática do pecado, mas contribui para aumentar as probabilidades da queda, promovendo a intensificação do desejo do coração do homem caído. A tentação só procede de fonte corrompida. Jamais de Deus.
Como pode ser isso? Deus incita Davi a fazer algo que, mais tarde, será punido como pecado. Se Davi tivesse levantado o censo sem ter-se envaidecido pela grandeza do seu próprio reino, não constituiria isso um pecado. Mas Davi, cujos valentes o autor do livro acabara de enumerar, sentiu a grandeza de seu reino, seu grande poder de guerra, sua força para as batalhas. Eis o pecado que jaz à sua porta. Como Deus dissera a Caim: "O teu desejo será contra ti. A ti cumpre dominá-lo". Coisa que Davi não fez.
Joabe, General do rei, percebe sua atitude errada diante da prova, esforça-se para dissuadi-lo de realizar o censo, mas o rei está resolvido a fazê-lo.
Fuga para Deus, em contrição e busca de perdão
Feito o censo, engrandecido o rei em sua vaidade e glória pessoal, aproximam-se as conseqüências do erro. Mas, então, manifesta-se o lado de Davi que sempre agradou a Deus: um coração capaz de quebrantar-se até o pó. Davi era assim apresentado: como um pecador sim, mas um pecador que não endurece, em cuja vida o pecado não cristaliza, não cria mofo, não envelhece. Sua maior habilidade não era a do guerreiro, não era a do grande administrador do reino. A grande marca distintiva de Davi era sua prontidão para arrepender-se verdadeiramente e mudar o rumo de suas ações. Era capaz de sentir uma tristeza tal por suas próprias faltas, de rasgar vestes, alma e coração na presença de Deus; mostrar-se um pecador que, consciente de seu pecado, corre, não para longe de Deus a fim de evitar encarar seus próprios pecados – mas corre para Deus. Como um menino travesso que, depois de feita a travessura, corre e se agarra às pernas do pai, com tanta proximidade, com tanta força, que chega a amolecer o coração do pai. Como o menino travesso cujo pai docemente o faz largar suas pernas,fita-o de frente e diz: "a vidraça do vizinho terá de ser paga", "a roupa rasgada terá de ser emendada", "o vaso quebrado precisará ser substituído": "vou pagar o preço e quitar a sua dívida. Mas você precisa saber que suas ações têm conseqüências. Alguém tem de pagar a conta".
É por isso que Davi se entristecia com o seu pecado. É por isso que ele é um bom modelo para repensarmos nossas vidas e entristecermo-nos com a tristeza de Deus – movida pelo Espírito – entristecermo-nos por causa de nossos pecados e corrermos para Deus, sabendo, com gratidão, que ele ficou com a conta a ser paga e nós com as marcas que não evitamos deixar em nossos caminhos.

Reconciliação: nova oportunidade para a obediência
Como foi no caso de Pedro que negou Jesus três vezes, à reconciliação junta-se a oferta de uma nova oportunidade para a obediência. No caso de Davi, Deus lhe dá como mandamento erguer um altar. Um altar é um lugar de encontro. Uma vez que o pecado separa o homem de Deus, Deus quer promover o encontro.
Quando Pedro, o discípulo, negou Jesus três vezes, este foi ao seu encontro na praia, durante uma pescaria. Ele, que conhecia o coração quebrantado de seu discípulo, quis então lhe oferecer a oportunidade do encontro. O encontro se dá no altar do perdão. O encontro se dá no altar da gratidão.
É isso que Davi busca simbolizar. Deus lhe ordenara que o altar fosse numa eira, cujo dono era Araúna. Davi sabia que o altar do seu encontro com Deus teria de ser numa eira que lhe pertencesse. Não se promovem encontros pessoais com Deus no altar de adoração dos outros. Na eira de outros. O altar deveria ser de Davi, na eira de Davi, para o encontro de Davi com o seu Deus. Davi compra a eira. Paga por ela o preço devido.

O simbolismo elaborado por Davi consistia da construção de um altar para a oferta de sacrifícios. Não há sacrifício sem altar. Não se justificam altares sem sacrifícios. Constroem-se altares para oferta de sacrifícios. Depois de comprar a terra, Davi compra também os bois por preço devido, embora Araúna lhos quisesse dar de graça: "não oferecerei ao Senhor sacrifícios que não me custem nada". Ao contrário do que muita gente pensa, Deus espera excelência em nossas ofertas. Deus é digno de nada menos que o melhor.

Há um preço a ser pago. A dívida que era impagável, do ponto de vista humano, Jesus já quitou com o preço de sua própria vida. O preço a ser pago agora no serviço a Deus, na adoração, é o preço da honra. Quando o profeta Malaquias disse que o povo estava desprezando a Deus através de seus sacrifícios de péssima qualidade, estava dizendo que o povo havia deixado de honrá-lo. Não se presta honra sem esforços, sem custos, sem trabalho. Não se presta honra ofertando o que não possui qualidade.
Adquirida a terra e os bois, Davi oferece holocaustos e sacrifícios pacíficos. O animal que morria no lugar do adorador pecaminoso representava a redenção da morte merecida pelo pecador. Todavia, sangue de animal jamais pôde trazer perdão de pecados. Deus ensinou que assim se fizesse como um ato simbólico que apontava para um sangue que, mais tarde na história humana, haveria de ser derramado – o sangue de Jesus Cristo – necessário e suficiente para a total reconciliação entre o homem e Deus.
A narrativa encerra-se afirmando o fato de Deus tornar-se favorável para com o pecador que, em lugar de endurecer-se em seu coração, reconhece-se faltoso e corre para Deus em busca de perdão e restauração do relacionamento com ele.

quarta-feira, junho 07, 2006

Olhos para ver, coração para perceber...

... não podiam crer, como disse o profeta Isaías:
Seus olhos estão cegos e endurecidos os seus corações,
para que não vejam com os olhos, nem entendam com o coração...
e sejam por mim curados. João 12.39,40

Nessa época do ano – desde o inverno até o início da primavera –, a maior parte da cidade está enfeitada de Ipês rosas, roxos, brancos e amarelos. É nada menos do que um espetáculo gratuito à mercê do olhar dos transeuntes. No entanto, isto passa despercebido para a maioria das pessoas. O que poderia estar roubando a cena de tão ilustres atores?

Talvez as pessoas não lhe voltem os olhos por acharem essa cena bucólica demais. Por serem defensores dos ideais modernos da vida urbanizada, tecnologicamente enfeitada pelas altas torres de TV e de telefonia, por exemplo. Mas as flores que caem ainda reclamam, sedutoramente, criando uma cobertura colorida para o chão do centro da metrópole, próximo também dos trilhos do veloz metrô. É possível que haja gente que ainda pensa maquinalmente que a cor do ferro e do concreto é que embeleza a cidade. Mas, certamente, isso não explica tudo, talvez não explique nada...

A explicação, provavelmente, é outra. Há olhares que se dispersam para outros valores, para bens materiais mais duradouros que a flor que, hoje, enternece, mas que completa seu curso de vida em não muito mais do que alguns dias. Há muitos que sonham o sonho do capitalismo enganador e seus olhos só pairam nas últimas versões de carros com cores metálicas impactantes ou nas grandes construções – que poderiam elas habitar, na roupa da moça bonita, que alguém sonha vestir para, quem sabe, também se tornar igualmente bela.

Mas há, ainda, um grupo de cujos olhos as encantadoras flores dos ipês de muitas cores são, de fato, objeto. Podia-se dizer até que eles as olham, mas não as vêem. E por que não? E se as olham e não vêem, o que vêem, então? Seus olhos físicos batem em qualquer coisa no caminho, pousam até mesmo sobre as flores da cidade. Mas os olhos da alma não fazem o mesmo. Esses ainda olham as cenas de um passado recente ou longínquo que impressionaram a retina e se cristalizaram na mente. Cenas como a da mão ríspida do pai que, no amanhecer do dia, repousa sobre o travesseiro como que descansando do pesado trabalho de, num ato de ira, expressão de ódio, fazer o filho entender o quanto o despreza. Cenas como a da despedida do amor que nasceu tão cedo no coração da menina, a menina que, de tão apaixonada, ofereceu toda prova a quem só queria aproveitar-se e partir; a cena que vê, ao olhar para si mesma e perceber que está se multiplicando por dois.

Olhos para ver o quê, se o coração é que percebe?! Percebe o desejo de compartilhar a vida com alguém que saiba amar verdadeiramente, alguém que tenha respeito. Percebe o desejo de ser visto do mesmo modo como parece acontecer às flores do ipê que se pintam de tantas cores e quer o mundo enfeitar. É! Esse desejo de ser objeto de um olhar demorado, encantado, comprometido...

É impressionante o quanto a natureza ensina o homem a ser humano. Aquelas flores passageiras fazem um discurso sobre a eternidade. Elas contam que são obra de um Artista que entende de cores e de formas, mas entende também de amor. Elas contam que pessoas são um poema que o Artista escreveu. E contam que Ele pode mudar suas histórias, transformando-as em histórias de pessoas que têm olhos para ver o que realmente mostram as flores dos Ipês, e perceber - dentro da moldura desse quadro - que seu Autor é a fonte de vida e de amor.

segunda-feira, maio 29, 2006

Peso da eternidade


Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo;
também pôs a eternidade no coração do homem,
sem que este possa descobrir as obras que Deus fez
desde o princípio até ao fim.Eclesiastes 3.11

De repente bateu uma saudade enorme. Saudade de não sei o que, saudade de não sei quem. Na verdade nem sei se é saudade mesmo ou se é um desses deliciosos sentimentos que enchem o coração da gente, sem a gente saber o motivo, sem a gente saber de onde vem.
Outro dia, senti um aperto no peito, uma sensação que não era de todo ruim. Minha filha disse que era o peso da eternidade. Não... Não é que eu seja assim tão velha. De fato atravesso uma fase na vida que se costuma chamar de meia-idade. E se a idade ainda está pelo meio, certamente não sou assim tão velha. Mas acho que ela tinha razão: era mesmo o peso da eternidade, da infinitude. É muito engraçado pensar nisso. O coração da gente não tem mais do que o tamanho de uma mão fechada, mas, mesmo assim, consegue carregar qualquer coisa de eternidade, de infinito. É fato que, às vezes, ele dá sinais de suas limitações, como aconteceu comigo, no outro dia... e aquela sensação tão forte chega a fazer a gente chorar.
O grande sábio Salomão já tinha dito que Deus pôs a eternidade no coração das pessoas, mesmo sem elas entenderem. Esse sentimento de eternidade – essa infinitude – tem a extensão sem limites que essas palavras tencionam anunciar. E o que parece é que, quando nascemos, trouxemos essa informação de eternidade que deve ter entrado em nós, quando passamos do não ser para o ser e, mesmo sem perceber – ainda duas células apenas – viemos a existir. Quando ainda não tínhamos esse cérebro que pensa e nem essas entranhas que sentem, mas já tínhamos qualquer coisa em nós que funcionasse como se cérebro fosse para somar na memória, como se entranhas fossem para vislumbrar nossas sensações. E os anos que passam, os dias que se vão ficam tão pequenininhos porque acrescentam àquilo que sempre foi, àquilo que ainda, eternamente, será.
Deve ser uma coisa assim: eu estava em meu pai, quando ele ainda era um garoto pequenino e brincava de fazer carrinho de madeira na fazenda onde morava. Por sua vez, ele estava em seu pai, que estava em seu avô e, assim ad infinitum. Todas as suas histórias são minhas histórias...
De alguma maneira eu estava lá, quando o sol da Via Láctea nasceu, porque, assim como meu pai me carregou nos seus genes quando ainda nem pensava que podia uma moça namorar e eu vim a ser carne de sua carne, imagino que essa estrela, que tornou e torna possível a vida que habita a matéria no meu sistema solar, me permite dizer que sou energia de sua energia e que sua história também é a minha história.
Não acredito em reencarnação. Não acredito em pré-existência da alma. Acredito que o universo é uma declaração (ainda que cheia de limitações), daquilo que Deus é. Trino e Uno. A sua criação é diversa, mas é inter.
Pensar nessa coisa macroscópica ajuda a gente a saber mais de si mesmo. Fica mais fácil entender a nossa insignificância. Mas o paradoxo está em que fica também mais fácil entender, usufruir e sentir a grandeza de nossa significância. Saber que faço parte de um projeto muito maior do que eu, cujos princípios antecedem os inícios da antigüidade, atingindo a ilimitada eternidade. Um projeto no qual faço toda a diferença, já que minha existência contribui (como parte do projeto) a fazer as coisas serem como são nesse meu lugar no cosmos. Saber que o projeto vai além de mim e da minha passagem pela história humana, mas que, uma vez tendo sido, sempre serei ... e que, em outra ocasião, compartilharei dos resultados que esse projeto há de alcançar.
Sei que tem muita gente que não acredita nessas coisas. Acham que somos matéria que hoje respira e amanhã se consumirá, como se não houvesse uma pessoa que veste esse matéria e que dela se despirá, continuando pessoa naquela ocasião que tenho chamado de eternidade.
Sei que tem gente que pensa assim.
Só não sei como é que explicam essa saudade que enche o coração da gente assim, de vez em quando, sem a gente saber de que ou de quem, sem a gente saber nem mesmo se é, de fato, saudade ou se é, na verdade, esse sentimento de eternidade que Deus colocou no coração da gente.

quarta-feira, maio 24, 2006

Não fosse o SENHOR...


Não fosse Senhor...
"Não fosse o SENHOR, que esteve ao nosso lado ....
não fosse o SENHOR, que esteve ao nosso lado .... e teríamos sido engolido vivos;
as águas nos teriam submergido, e sobre a nossa alma teria passado a torrente;
águas impetuosas teriam passado sobre a nossa alma.
Bendito o SENHOR, que não nos deu por presa...
Salmo 124.1-6

"Tem dia que a gente se sente como quem partiu ou morreu" – já dizia a música do Chico Buarque. De fato, há dias em que a gente sente a vida muito pesada. É como se houvesse uma onda no ar, um tsunami à volta da gente, o qual nos lança de um lado para outro quando se tenta mesmo o menor dos movimentos.

Nessas ocasiões, o coração fica como se feito de gelatina fosse. As pernas se tornam trôpegas, os braços esmorecidos. Sente-se totalmente perdido, sem forças e sem direção. Desfalece-se a alma. De repente, a gente começa a se sentir pequeno demais diante da vida e é como se os passos precisassem ser maiores do que as pernas e o horizonte, então, diante dos olhos, tornasse-se maior do que o alcance do olhar.

É algo assim difícil de explicar... Perde-se a visão do todo e o olhar desce ao nível microscópico. Vê-se não mais o corpo, mas, em vez disso, vêem-se trilhões de pequeninas células com suas centenas de microestruturas, todas sobrecarregadas. De repente, o mundo – olhado assim microscopicamente – fica mesmo um mundo muito grande. De repente, não há força que baste para percorrer tamanha distância, lutar batalha tão renhida... parece mesmo que o dia ficou mais longo do que se pode suportar... e a nítida sensação que se tem é de estar-se vivendo em meio a uma guerra. E, conquanto seja necessário, não é fácil encontrar o caminho a trilhar no meio de um campo minado.

O escritor do Salmo 124, na ocasião em que o escreveu, certamente vivia uma situação semelhante a essa. Ele abre o coração e conta que se sentiu como se estivesse prestes a ser engolido vivo. Como se o rio da vida, de repente, tornasse-se em mar bravio e suas águas impetuosas o quisessem submergir, fazendo passar suas torrentes sobre ele. Nessa hora, todavia, ele não estava só. Seu Deus era sempre presente.

Passadas as grandes ondas, o salmista olha para trás e diz: "se não fosse o SENHOR, que esteve ao nosso lado... ah! Se não fosse o SENHOR...

Observando, assim, a experiência do escritor, fazemos coro com a sua voz e dizemos também: se não fosse o SENHOR... ah! Se não fosse o SENHOR que sempre esteve ao nosso lado... Nas horas de turbulência, quando as ondas queriam fazer-nos naufragar, elas nos teriam engolido vivos, elas nos teriam feito submergir... ah! Se não fosse o SENHOR...

Mas certo é que ele sempre esteve e sempre está ao nosso lado. O que nos falta, na maioria das vezes, é aprender a olhar para ELE, em vez de olhar para as grandes ondas. O que nos falta é aproveitar esses momentos em que nos sentimos tão pequenos, tão limitados, com as pernas menores que os passos que temos de dar, aproveitar que ganhamos consciência de nossa finitude e pequenez e, então, entender que o tamanho microscópico é uma característica não apenas nossa: também caracteriza as ondas que, EM RELAÇÃO A ELE, são igualmente pequeninas.

A questão não é recuperar uma visão grandiosa a respeito de nós mesmos. A questão é recuperar a visão da grandeza de Deus e confiança para corrermos para ELE porque, de fato, o mar é bravio e, nele, não dá pé.

Bendito o SENHOR que não nos deu por presa.

quinta-feira, maio 18, 2006

Apoio inabalável


...e não te estribes no teu próprio entendimento.
Prov. 3.5

Estive me lembrando de algumas vezes em que passei por períodos de grande prostração. Ficava assim como resultado de esgotamento físico que, por sua vez, resultava do excessivo trabalho, do labor nos estudos, de lutas com enfermidades na família. Além de tudo isso, somava-se o estresse gerado por situações desnecessárias, tais como a busca de atender as muitas expectativas das pessoas à minha volta, a indignação causada pelos juízos de valores de outros em relação à minha vida, cobranças de todos os lados. Lutas por fora, à volta da gente; lutas por dentro, consumindo da alma suas últimas reservas de energia.
Não pretendo tratar agora das circunstâncias geradoras daqueles estados de prostração. O que me veio à memória nesses últimos dias foi a lembrança do estado propriamente dito e de tudo que pude colher daquela luta.
Lembro-me de vezes em que ajoelhava para orar, para clamar a Deus por socorro. Naquelas horas pensava nas palavras do sábio: "e não te estribes no teu próprio entendimento" (Provérbio 3.5). Aprendi a não apoiar-me em mim mesma. Aprendi, naquelas horas, a apoiar-me em Deus em oração. Confessava-lhe meu total esgotamento, minha absoluta falta de reservas, quer no corpo, quer na alma. Sabia que sequer teria forças para levantar-me da posição em que me colocara para orar.
Assim, aquele cantinho escolhido para essa entrega total diante dele, para ali declarar o reconhecimento da completa falência que se apossava do meu ser –, aquele cantinho se tornava um estribo – semelhante àquele que acompanha a sela do cavalo e sobre o qual o cavaleiro apóia o seu peso para subir no animal. Aprendi, então, a não me estribar em mim mesma, em meu próprio entendimento.
O fato é que, sempre que passava por essa experiência, levantava-me renovada, refeita. Depois de todas as lágrimas vertidas, erguia-me com uma alegria que inundava o meu ser e com meu espírito cheio de paz.
(In)felizmente, a experiência de chegar ao ponto do esgotamento profundo não ficou no passado de minha vida. Talvez até pudesse dizer que existe uma tendência de serem essas experiências cada vez mais profundas, haja vista que o tempo vai passando, o corpo envelhecendo e seus limites vão-se tornando cada vez mais nítidos. Mas, em contrapartida, o amadurecimento advindo dos encontros com Deus nesses vales da vida estabelece muitas diferenças entre o tempo de agora e aquele que se foi. Cada vez estou mais firme no entendimento de que não há em mim mesma uma base sobre a qual estribar-me, e estou cada vez mais firme em minha confiança em que Deus é meu apoio estável, consistente, meu suporte absoluto.
Confie no SENHOR de todo o coração e não se apóie no seu próprio entendimento".

sexta-feira, março 03, 2006

Renovação que se prolonga


Pouco a pouco, os lançarei de diante de ti,
até que te multipliques e possuas a terra por herança.
Não os lançarei de diante de ti num só ano,
para que a terra se não torne em desolação
e as feras do campo se não multipliquem contra ti.
Êxodo 23.30-31
O texto em epígrafe é parte das orientações dadas a um povo que estava sendo tirado de uma terra onde tinham sido escravos por mais de 400 anos. Nele, seu Deus lhes faz uma promessa de desocupar a terra que já lhes pertencia desde antes de seus anos de escravidão e que fora ocupada por outros povos. Todavia, esclarece que não vai desocupá-la toda de uma vez, mas há de fazê-lo paulatinamente, à medida que eles se fossem multiplicando. Caso contrário, a terra poderia ser invadida por feras.

Essa narrativa me faz lembrar de uma coisa que ouvi, certa vez, de um psicólogo. Ele dizia que, quando lidava com situações em que as pessoas estavam inseridas em crises muito intensas e iniciadas já há muito tempo, as terapias nunca visavam a extinguir abruptamente tais crises. A razão é que, quando as pessoas lidam há muito tempo com situações que absorvem seu tempo, sua atenção e sua energia, elas vão se tornando dependentes de tais crises. Extingui-las, abruptamente, seria o mesmo que retirar-lhes a base de sua sustentação, do motivo pelo qual, em última análise, elas vivem. Desse modo, o terapeuta deveria trabalhar no sentido de conduzir essas pessoas a encontrarem novas fontes de motivação para a vida. E, somente, à medida em que coisas novas fossem ocupando o espaço em suas mentes e corações, é que poderiam ir desocupando-se das antigas ocupações.

É incrível pensar nisso. Existem pessoas que são sustentadas pelas mesmas coisas que as atormentam. Lembro-me de um trecho de um poema barroco, intitulado "A uma ausência" do escritor português, Antônio Barbosa Bacelar, que dizia justamente isso:

"Sinto-me sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo, que me alenta,
O mal, que me consome, me sustenta,
O bem, que me entretém, me dá cuidado"

De fato, Deus conhece a estrutura do ser humano. É isso que somos. Nosso ser não é mais que uma ausência. Ocupamo-nos desesperadamente das coisas que tocarem as nossas vidas. Às vezes, algumas delas tocam nossos corações, consumindo-nos e dilacerando-nos. E, no entanto, não buscamos extingui-las, porque sabemos que o vazio, a ausência, é pior que qualquer outro mal. Não sabemos viver uma vida sem propósito. Mas há propósitos que queimam como fogo, enquanto insistimos em pensar que eles apenas nos alentam.

Eu entendo que é por isso que, quando encontramos em Deus o grande e único propósito que nos sacia com o bem verdadeiro, ele nos conduz daí em diante, num tratamento que varia de uma para outra pessoa, numa perspectiva temporal. Conquanto a obra dele seja plena em nós desde o primeiro encontro – se morrêssemos ali, estaríamos prontos – , há uma caminhada a ser feita, durante a qual o Espírito dele vai enchendo a vida da gente de fruto e nos livrando dos ranços oportunistas e parasitários de uma vida velha. Se pensarmos bem, às vezes não temos, para com as pessoas, nem com nós mesmos, a mesma paciência que vemos em Deus.

Quando o povo que fora libertado de sua escravidão, foi levado à terra que outrora era deles e agora voltaria a ser, eles tiveram que aprender a sabedoria de esperar a desocupação paulatina da terra, a qual iria acontecer na mesma medida em que fossem se multiplicando. Tomar posse da terra envolveria um processo de dupla face. Por um lado, era preciso que a terra fosse desocupada; por outro, era preciso crescer. E tudo isso num dinamismo tal que fosse capaz de impedir a acomodação na situação de crise.

Esse processo me ensina muitas coisas: É preciso saber quem sou, saber que sou distinto daquilo que invadiu a minha terra, o meu espaço, a minha vida, seja lá o que for. É preciso, ainda buscar ocupar a herança que me foi dada, o que farei na mesma proporção em que aprender a despir-me do que cheira à antigüidade, na mesma proporção em que aprender a despedir-me dos fantasmas que se negam como tais, na mesma proporção em que valores novos passam a encantar o meu olhar. É, assim, através deste processo, que vou deslocando o meu investimento de tempo, atenção e energia para as coisas que são totalmente novas.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Quando um ladrão é posto para cuidar do dinheiro


"Judas disse isso, não porque tivesse pena dos pobres,
mas porque era ladrão.
Ele tomava conta da bolsa de dinheiro e
costumava tirar do que punham nela".
João 12.6
Com exceção de Lucas, que cita o nome Judas uma única vez, todos os outros evangelistas citam-no duas vezes. Mateus e Marcos citam-no quando listam os 12 chamados para serem discípulos e quando esse procura os principais sacerdotes para vender o serviço de entregar-lhes Jesus. Lucas cita-o apenas para identificá-lo como traidor. João é quem o apresenta da maneira mais negativa das quatro narrativas.
A primeira vez que João fala de Judas, eles estão na casa de Lázaro. Foi nessa ocasião que Maria quebrou o vaso de precioso perfume sobre os pés de Jesus. João conta que Judas – aquele que estava para trair Jesus – fez referência ao ato de Maria como um desperdício, pois aquele perfume poderia ter sido vendido e o dinheiro dado aos pobres. Todavia, acrescenta João, a observação de Judas devia-se não ao seu cuidado para com os pobres, mas ao fato de ser ele um ladrão que tirava da bolsa de dinheiro do grupo dos discípulos – pela qual era ele o responsável – aquilo que nela era lançado.
A outra vez em que João se refere a esse discípulo é quando estão todos à mesa para a última ceia e, "tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que traísse a Jesus ..." Jesus anuncia que "aquele que come do meu pão levantou contra mim seu calcanhar ..., aquele a quem eu der o pedaço de pão molhado". "Tendo-o molhado, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. E, após o bocado, imediatamente, entrou nele Satanás. Então, disse Jesus: O que pretendes fazer, faze-o depressa."
Não considerando todas as explicações que se dão alhures sobre Judas ser um revolucionário que pretendia forçar Jesus a aceitar a posição de rei-libertador, sendo esse o motivo por que o traiu – explicações essas, ou tentativas de explicações, à parte, o fato é que Judas tinha um problema para lidar com o dinheiro. A referência de João a ele como alguém que não suportava uma homenagem feita a Jesus à custa do derramar de um perfume que poderia ter sido vendido por trezentas moedas de prata, a ponto de justificar o seu incômodo diante do ato de Maria, com uma pretensa preocupação com os pobres – tudo isso – dificulta ter dele uma visão de um revolucionário em busca de libertação política para sua gente.
O mais intrigante, contudo, é ser justamente ele o responsável por "levar a bolsa". Teria sido ele comissionado pelo próprio Jesus? Teria ele se oferecido para esse exercício? A questão é que, tendo recebido essa responsabilidade do próprio Cristo ou não, certamente ele era o responsável pela bolsa com o aval do Mestre, o qual a todos conhecia. Pelo que parece seus atos furtivos não eram desconhecidos nem mesmo dos outros discípulos.
Dessa posição aparentemente passiva de Jesus em relação aos assaltos de Judas à bolsa, salta ao olhar o entendimento de que o dinheiro era, de todas as riquezas, a menos importante para ele. Se a administração da bolsa tomava tempo e era trabalhosa, era preferível que os outros discípulos ficassem liberados dessa responsabilidade, a fim de cuidarem de fazer crescer e aumentar outras riquezas de valor real, tal como a divulgação do evangelho, a consolação dos que choram, a cura dos quebrantados de coração, a proclamação da libertação para os oprimidos e cativos sob qualquer espécie de dominação, o apregoar do ano aceitável do SENHOR e a tarefa de pôr sobre os que estivessem de luto uma coroa, em vez de cinzas, óleo de alegria, em vez de pranto, veste de louvor, em vez de espírito angustiado (Isaías 52).
Pensar que a Judas foi delegada a tarefa de cuidar dos assuntos ligados diretamente ao dinheiro pode fazer que se pense em muitas coisas: uma, mencionada acima, que o dinheiro é, na verdade, a menor das riquezas; outra, ligada, ao trabalho de Deus nos homens, concedendo-lhes a oportunidade de assumir uma atitude diferente, ao outorgar-lhes responsabilidades ligadas justamente às suas principais fraquezas. Pode-se falar, ainda, de que, conhecendo ele todos os corações humanos, mesmo assim, não antecipa seus deslizes, mas age para com os seres humanos com longanimidade; com conhecimento, sim, mas sem desconfiança, até os limites da própria traição, como fez Jesus.
Que responsabilidades Deus lhe outorgou? Pense nelas como atos de tratamento de Deus para com a sua vida.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

A casa ficou cheia do perfume


Ela derramou o perfume nos pés de Jesus.
E encheu-se toda a casa
com o perfume do bálsamo
João 12.3

Quando Jesus esteve nesse mundo, várias pessoas o seguiam, formando, muitas vezes, uma verdadeira multidão. Algumas dessas pessoas haviam sido chamadas nominalmente por ele mesmo para que o acompanhassem: eram os 12. A esse grupo restrito de discípulos que o seguiam mais de perto outras pessoas se agregaram. Para ambos os grupos, de modo especial para os 12, ele disse mais de uma vez que sua missão entre os homens era dar a sua vida a fim de resgatá-los e garantir-lhes vida eterna em comunhão com Deus, o Pai.
Essa mensagem, entretanto, chegava a ser insuportável para alguns de seus seguidores. Era assim para alguns, pelo muito que o amavam; para outros, pela esperança que nutriam de que ele assumisse a glória humana de – como seu rei – libertá-los da dominação estrangeira. Davam a entender, na verdade, que não compreenderam o que ele lhes dizia sobre sua missão.
Uma mulher chamada Maria, contudo, demonstrou ter compreendido a profundidade da missão de Jesus e a necessidade humana de que ele a cumprisse. Era ela irmã de Marta – que se esforçava com o fim de proporcionar a Jesus deliciosas ceias. Era também irmã de Lázaro, aquele cuja morte o comoveu e o moveu a chorar diante dessa realidade que ele veio para mudar através de sua própria morte. A este ele ressuscitou dos mortos, demonstrando seu poder e a autoridade que lhe fora delegada pelo Pai. Eram Marta, Maria e Lázaro: todos seus amigos pessoais.
Algum tempo depois do emocionante acontecimento em que ele chamou Lázaro de volta à vida, foi Jesus recebido em casa de seus amigos os quais lhe ofereceram um jantar. Foi nessa ocasião de estreita proximidade e comunhão com o Amigo, que Maria demonstrou o alcance de seu discernimento e de seu amor: "pegou um frasco cheio de um perfume muito caro, feito de nardo puro e o derramou nos pés de Jesus, enxugando-os com os seus cabelos, de modo que toda a casa se encheu daquele cheiro."
Quem entende um pouco de perfumes pode compreender a grandeza da atitude de Maria. Aquele ato constituía um verdadeiro ritual. De fato, um estudo da história dos perfumes mostra que, inicialmente, eles eram utilizados somente em rituais religiosos, quando eram queimados em oferenda à divindade. Só posteriormente passou a ser utilizado para outros fins.
Quando Maria derramou o perfume sobre os pés de Jesus, houve quem achasse o feito um desperdício. Mas o próprio Jesus advertiu que a deixassem guardar aquele ato para o dia do sepultamento dele. De fato, ela estava demonstrando sua compreensão das palavras ditas por ele tantas vezes, ao falar de sua missão.
Ao mesmo tempo, derramar o perfume significava a profunda adoração que ela prestava ao Mestre, reconhecendo-lhe da divindade, da mesma forma que os magos vindos do Oriente, por ocasião do nascimento de Jesus, trouxeram-lhe, entre seus presentes, perfumes.
Uma das coisas que mais chamam a atenção nessa atitude de Maria é o fato de ela reconhecer dele a divindade e prenunciar o seu sepultamento. Há algo de grandioso demais no Deus que dá a sua vida para resgatar a de seus amigos; no feito do Deus que permite que sua vida seja consumida, derramando-se como um perfume que se espalha no ar.
Maria expressava seu entendimento de que, tal como o perfume, somente a vida doada, entregue e derramada poderá encher a casa com seu delicioso aroma. Ela entendia que essa era a missão de Jesus ao vir ao mundo e compreendia, ainda, que ela, como discípulo dele, era chamada para imitar-lhe o exemplo, permitindo que sua vida fosse desgastada e consumida na mais profunda, sincera e completa adoração ao seu Deus.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Procurando pérolas finas



"O Reino do Céu é também
como um comerciante que anda procurando pérolas finas.
Quando encontra uma pérola que é mesmo de grande valor,
ele vai, vende tudo o que tem e compra a pérola.
Mateus 13. 45, 46

No texto acima, Jesus usa a metáfora do comerciante de pérolas no intuito de facilitar um pouco o entendimento de seus ouvintes acerca do Reino do Céu. Em seu discurso no sermão da montanha, ele dissera que a ansiedade em relação a coisas que estão fora de nosso controle, em geral, levam-nos a viver a vida por antecipação, cheia de pré - ocupações. Afirmou que, em vez de cultivar tal ansiedade, nossas buscas deveriam focalizar o Reino de Deus e a sua justiça, antes de tudo mais.

Mas o fato é que esse acerto na ordem de prioridades das coisas na vida está profundamente ligado àquilo que desejamos. Cada objeto de nossos desejos representa um tesouro, uma pérola valiosa. Passamos a vida procurando pérolas, pérolas finas, pérolas preciosas.

Há pessoas que têm uma vida afetiva confusa e tentam relacionar-se intimamente com muitas pessoas, simultaneamente. Todavia, em geral, a intimidade que alcançam com elas não é mais do que a do nível físico. No dia em que uma pessoa dessas encontra alguém cuja alma une-se à sua e descobre-se numa relação em que a intimidade alcança e ultrapassa o nível das emoções e atinge os lugares mais recônditos do seu ser, sua alma, seu espírito – nesse dia – são capazes de deixar cem relações superficiais, ou até mais, para usufruírem uma única – intensa e intimamente. Trata-se de alguém que achou uma fina pérola, de grande valor.

A metáfora aplica-se bem aos relacionamentos pessoais. Mas aplica-se também a todos os outros níveis de nossas vidas: carreira, pesquisas, projetos, crenças...

A parábola mencionada acima usa tal metáfora para falar de uma pérola que é mais preciosa do que qualquer outra fina pérola que já tenha vindo ocupar um bom lugar numa ordem certa nas prioridades de nossas vidas. A pérola é de todo preciosa e tão preciosa é que torna difícil dizer se a possuímos ou ela é quem nos possui. Para possuí-la ou ser por ela possuídos, seríamos capazes de entregar todas as mais finas pérolas que buscamos e adquirimos ao longo de nossas vidas: nossos relacionamentos preciosos, nossas frutíferas e dignas carreiras, nossas relevantes pesquisas, nossos projetos imprescindíveis, nossas crenças mais antigas...

A crise, a angústia, a grande questão de todo ser humano é essa: a necessidade, o desejo de achar a pérola de grande valor. O perigo é encontrá-la e não se dar conta disso e continuar atribuindo às outras coisas um valor maior do que elas realmente têm.
Não há nada mais precioso do que encontrar a pérola de grande valor. Não há nada mais precioso do que viver conscientemente nossa posição de cidadãos do Reino do Céu, entendendo que esse é o grande tesouro, a pérola de valor inestimável.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Eles é que se preocupam com essas coisas...


"Por isso eu digo a vocês: não se preocupem com a comida e
com a bebida de que precisam para viver nem com a roupa de
que precisam para se vestir. Afinal, a vida não é mais
importante do que a comida? E o corpo não é mais importante
do que as roupas? E nenhum de vocês pode encompridar
a sua vida, por mais que se preocupe com isso."
(Mateus 6.25 e 27)

Ouvi uma história uma vez em que um índio conversava com um branco e aquele perguntou a esse:
- Por que você corre o tempo todo e trabalha até ficar esgotado?
- Para assegurar-me de que, depois de minha partida, meus filhos terão onde morar e do que viver – respondeu o branco.
- Não procedemos assim – disse o índio – porque acreditamos que a mesma natureza que nos supriu em relação a essas necessidades também suprirá nossos filhos.
Há um trecho do sermão da montanha, no qual Jesus adverte aos seus seguidores que não se empenhem em acumular tesouros sobre a terra, porque aqui a traça e a ferrugem corroem e os ladrões roubam. Além disso – dizia ele – onde está o tesouro do ser humano aí, também, está o seu coração. Advertia ele, ainda, de que, quando os bens se tornam deuses sobre as pessoas, elas ficam com os seus corações divididos.
Ele bem que entendia que tal preocupação em ajuntar riquezas – como aquele branco esclareceu ao índio – é resultado da preocupação com o que se haverá de vestir, de comer e beber, com a preservação da saúde do corpo e com o alongar-se da vida.
Quando ouvi aquela pequena história do diálogo entre o branco e o índio, percebi sua sabedoria em entender que ajuntar tesouros onde esses são consumidos ou roubados é sinal de tolice. Tolice que advém da preocupação desesperada com a vida – mas tolice.
Sábio é perceber os limites de nossos poderes de controlar o que quer que seja. Não podemos garantir a preservação de nossos bens – nem os materiais, nem os relacionados com o nosso corpo, nem com o alongar-se da vida. Jesus mostrou que sábio é entender que Deus é quem veste a erva do campo, alimenta as aves que voam e muito mais faz por aqueles que crêem nele – os seus filhos.
Não nos inquietemos com tais pré – ocupações. Antes, ocupemo-nos em buscar, em primeiro lugar, o reino de nosso Pai e a sua justiça. Ele conhece nossas necessidades. Ser-nos-ão supridas por nosso zeloso Pai e Rei.
Estas preocupações são próprias daqueles que não entraram na relação de Pai e filho com Deus, na relação de servo do Rei Jesus. Eles é que se preocupam com essas coisas.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Sempre e nunca


"O fogo nunca se apagará no altar; deverá ficar sempre aceso."
(Levítico 6.13)

Esse é um texto bastante carregado de simbolismo, assim como todo o ritual de que fala o livro de Levítico. Tanto os aspectos concretos presentes nesse texto – fogo, altar – são tremendamente simbólicos, como também o são aqueles outros mais abstratos – o não apagar, o ficar aceso, o nunca, o sempre.

Não pretendo aprofundar a temática de que trata o livro. Apenas compartilho aquilo que é despertado em meu coração por todo esse simbolismo. E o que mais salta diante dos meus olhos está ligado ao aspecto abstrato do texto: o fato de que, no altar, o fogo estaria sempre aceso, nunca se apagaria. ‘Sempre’ e ‘nunca’.
O fogo no altar queimava as ofertas. As ofertas pelo pecado eram totalmente queimadas. E, ao queimá-las totalmente, o fogo se prolongava. Mas, ao final, só restavam cinzas. Cinzas que lembravam o arrependimento que moveu o coração do ofertante. Cinzas que lembravam o perdão concedido com base no sangue derramado, o qual, por sua vez, derramava paz no coração contrito.

Na verdade, não era o sangue do animal queimado em holocausto que quitava para com Deus a dívida do faltoso. Havia um outro – simbolizado por aquele –, sangue do Cordeiro que foi morto na eternidade, morto na história do homem. Esse, sim, era suficiente e necessário e válido: uma vida em lugar de outra vida - pleno perdão.

O fato do fogo nunca se apagar - mas ficar sempre aceso - faz a gente pensar no quanto o ser humano tem facilidade para errar.
Mas havia ofertas feitas em gratidão, adoração e que também contribuíam para o fogo manter-se aceso no altar. Essas outras ofertas eram queimadas apenas parcialmente.

Desse modo, o fogo que nunca se apaga faz a gente pensar na fraqueza e falibilidade humanas. Faz a gente pensar na necessidade e no benefício de uma postura de contrição contínua, de corações quebrantados, de arrependimento profundo e propiciador de recomeços. Faz a gente pensar na disposição de Deus em perdoar, na sua graça incomensurável.

Mas o fogo que nunca se apaga também faz a gente pensar numa postura de adoração, na gratidão como um estilo de vida, no reconhecimento da bondade e do cuidado de Deus como a força motriz e direcionadora de nossas ações e reações.
O fogo que sempre fica aceso faz a gente, ainda, pensar em perseverança, em constância, em longanimidade. Faz a gente pensar em ir ficando parecido com o nosso Pai, já que nele não há nem mesmo sombra de variação. Seus dons são irrevogáveis, suas promessas cumpridas cabalmente, sua palavra imutável, sua posição fiel e confiável.

O meu coração também é um altar e o fogo nele não pode nunca apagar. O fogo nele há de sempre arder.

l

terça-feira, janeiro 03, 2006

Graça, superabundante graça

"A terra, SENHOR, está cheia da tua bondade".
(Salmo 119.64a)

Há uma discussão entre algumas culturas quanto ao ponto do calendário em que realmente se inicia o ano novo. Para mim, o ano novo começou mais cedo do que de costume. Era o dia 21 de dezembro, quando, em minhas leituras bíblicas deparei-me com um texto que trazia uma verdade, muitas vezes já lida por mim, porém ainda não apreendida. Não até aquele dia. O texto dizia "a terra, SENHOR, está cheia da tua bondade" (Salmo 119.64a).

A filosofia que sempre caracterizou a minha maneira de olhar para a vida, para o mundo, para o ser humano, nunca foi muito como a daqueles que procuram ver o lado bom de tudo. Nunca gostei muito de síndrome de Polyana, a menina da novela que leva seu nome que, esperando ganhar uma boneca de presente, mas que em lugar disto ganhou um par de muletas, começou a alegrar-se pelo fato de não precisar delas.

Quanto a mim, olhava para o mundo sempre lembrando a queda do ser humano no pecado, a maldição resultante não só sobre ele e sua descendência, mas também sobre toda a natureza. O fato de que as melhores experiências da vida, ter filhos e gerenciar a Terra, haveria de ser feito em meio a dores e abundante cansaço é que enchia os meus olhos.
Naquela noite das minhas referidas leituras, todavia, senti que Deus me fazia relembrar e entender, de toda minha alma, talvez, pela primeira vez, que onde o pecado abundou, superabundou a graça.

Não podendo acreditar nos insistentes pensamentos, equivocados segundo minha perspectiva, de que houvesse gente boa no mundo, gente que realmente buscava o bem de outrem, e de que pudesse haver, na humanidade, qualquer esperança para ela mesma, resolvi nunca esperar nem tentar achar nada de bom por aí. Porque de fato não iria encontrar.

O que ocorre é que, decorrente de meu realismo naturalista, fui perdendo o entendimento da graça de Deus que faz a sua bondade encher a terra, ainda que seja ela uma terra caída em pecado e guardada para tempos de juízo e condenação.

É como João testemunhou sobre a Luz, o Logos: as trevas não lhe podem resistir. O sábio Salomão já tinha escrito que a luz do amanhecer surge justamente quando mais alta vai a madrugada, quando mais escura é a noite.

O profeta Jeremias exerceu o seu ministério no momento mais difícil que um profeta poderia fazê-lo. A profecia que vinha de Deus para ele anunciar ao povo era de ameaça e destruição e ele levava esta mensagem a eles exatamente quando essa mesma profecia estava sendo cumprida. Ele aprendeu uma estratégia para si mesmo e ensinou aos seus leitores e muita gente a tem praticado: "trazer à memória aquilo que pode dar esperança".
Conquanto tenha sido um profeta que exerceu o seu ministério em meio ao pranto, tinha uma atitude positiva.

Faltava-me aprender tal lição. E não se aprende isso a não ser como uma dádiva da operação do Espírito de Deus. Não há lugar onde o pecado que desgraçou a humanidade isente-a da graça de Deus. Isso é absolutamente paradoxal.

O ser humano des – graça – do tem oportunidade de experimentar a graça abundante de Deus.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Aquietai-vos e sabei


Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus.
O SENHOR dos Exércitos está conosco;
o Deus de Jacó é o nosso refúgio.
Salmo 46.10-11

Os autores do Salmo 46 ensinam que não há por que temer, mesmo diante de lutas e de provações. Descrevem uma imensa tempestade e contam de tempos de guerra que a tudo destrói. Convidam para buscar no SENHOR o refúgio em se habita seguro, por mais intensa que seja a tempestade, por mais rigorosa que seja a guerra.
Mas uma coisa é lutar em meio às tempestades que nos cercam e outra, muito diferente, é tratar com elas quando invadem nossos esconderijos secretos, os recônditos da alma e põem lama até a metade das paredes da casa que somos.
A tempestade que invade a alma é também instrumento de destruição. Quebra nossos tesouros antigos, dissolve os papéis de nossas lembranças, de nossos compromissos; mancha e embaça as nossas certezas e despedaça entradas e saídas, consumindo, assim, nossa liberdade – a possibilidade de ir e de vir.
Esse ambiente interior em nada difere da cidade sitiada, de muralhas rompidas, de estruturas destroçadas, com suas casas queimadas e pessoas aprisionadas e feridas.
Quando a cidade esmagada é o mundo interior – os nossos próprios corações –, quando o vendaval da tempestade escurece e torna escorregadio os lugares desconhecidos do espírito humano, já não é um refúgio que nos pode acalentar, mas é a fortaleza que vem como a esperança da alma.
Enquanto o refúgio é o lugar seguro para guardar-nos da guerra e da tempestade ao nosso derredor, a fortaleza é a segurança que age de dentro para fora, instalando, na base mais profunda do ser, a esperança como âncora da alma.
E a âncora não falha: desempenha sua função de conferir estabilidade. Ela não interfere na tempestade, não reduz a força nem a altura das ondas; não torna límpida a correnteza nem diminui a velocidade dos ventos. A âncora da alma – a esperança instalada pela fortaleza – interfere mesmo é naquele que enfrenta a tempestade, firmando, confirmando e fortalecendo o aflito e atribulado.
A razão de tudo isso é que há uma voz que fala do centro da fortaleza; uma poderosa voz que supera o som das muitas águas, o ressoar do vento tempestuoso e o estrondear de armas aterradoras . É isso o que ela diz: "Aquietai-vos". "Eu sou Deus"- estou no controle. "Faço cessar a guerra, quebro o arco e despedaço a lança, queimo os carros no fogo". Por mais intensa que seja a escuridão da noite tempestuosa, assegura a voz que vem do centro da fortaleza: "Estou convosco, aquietai-vos, estou convosco".

segunda-feira, dezembro 19, 2005

O lugar seguro em tempos de tempestade


Ainda que terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares, não temerei...
Salmo 46.2

Não são muitos os tsunamis na história do nosso planeta. Felizmente. Felizmente, também, as tempestades que fazem estremecer nossas almas também não são muitas. Todo marinheiro, todavia, sabe que as pequenas tempestades são muito mais comuns.
O Salmo 46, da autoria dos filhos de Coré, certamente não está tratando de uma lista de regras para ajudar um marinheiro que sai a navegar. Na verdade, os autores buscam, no contexto das tempestades que vêm sobre os marinheiros que estão no mar, uma metáfora para fazerem alusão às tempestades que alcançam a alma humana.
São muitas e de diferentes intensidades as tribulações que enfrentamos, as tempestades que recobrem os céus dos mares em que navega a nossa alma. Há, inclusive, dias e noites em que as altas ondas são tão bravias que nos fazem pensar que vamos sucumbir sob sua força. Há momentos em que o chão sob nossos pés se transtorna e mais parece areia movediça. Há situações em que as águas tumultuam e expressam grande fúria, lançando-nos para frente e para trás. Os montes se abalam e estremecem – justamente os montes que metaforizam lugar de segurança, o lugar de onde é possível ver o inimigo antes que esse se aproxime demais. Justamente os montes que proporcionam o descanso do tempo nos vales... justamente eles, os montes, abalam-se e estremecem, abrindo-se em fendas perigosas que darão origem aos vales de sombra e de morte.
Na verdade, quem observar com atenção verá que, na vida, há mais tempos tempestuosos do que tempos de calmaria, simplesmente porque há um dinamismo em tudo que existe, qualquer que seja sua ordem, como parte de um grande plano que se encontra em execução. O importante é estar consciente dessas coisas e preparado para elas, correndo para o refúgio e fortaleza que é o SENHOR.
Não importa o tamanho da tempestade, nem a altura das ondas. Não temeremos, porque ELE é socorro bem presente nas tribulações.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Meu refúgio e minha fortaleza



"Ainda que os montes que estão
no seio dos mares se abalem,
ainda que as águas tumultuem e espumejem
e na sua fúria os montes se estremeçam..."
Salmo 46.2
A instabilidade que se percebe na natureza é, provavelmente, resultado do dinamismo que está presente nas leis a que ela obedece, as quais têm, justamente, a função de conferir-lhe estabilidade.
Tudo no universo existe num dinamismo tal que, visto microscopicamente ou pelos menos mais de perto, nas unidades de seus eventos, mais parece a presença do caos. Mas o próprio caos não é ‘caótico’ no sentido de não possuir ordem.
Alguém poderia pensar que os filhos de Coré, na composição do Salmo 46, estivessem refletindo sobre a natureza e sua instabilidade; sobre as relações internacionais e sua instabilidade. Todavia, o Salmo trata da estabilidade e segurança que há em Deus: refúgio e fortaleza. É por isso que as idéias dos salmistas vêm na seqüência em que as encontramos.
Já de início, há uma assertiva "Deus é nosso refúgio e fortaleza". Como se vê, o olhar do compositor está firmado nos atributos de Deus, na segurança que disto procede, tanto da perspectiva interna quanto externa. As conclusões que seguem a assertiva inicial nela se baseiam.
Um perigo que se corre na leitura desse salmo é o de ignorar a palavra ‘portanto’ que estabelece uma relação gramatical de coordenação e não de subordinação entre as orações ‘Deus é o nosso refúgio e fortaleza... portanto não temeremos...". A palavra destacada é uma conjunção que enuncia uma conclusão (não temeremos), baseada no fato de que Deus é nosso refúgio e fortaleza". E por que alguém correria o risco de ignorar tão importante palavra? Por causa de uma outra conjunção que o salmista também usa, "ainda que", na seqüência do texto. Essa sim, cria um laço de subordinação desta oração em relação a "não temeremos". Outras palavras que teriam traduzido muito bem a idéia seriam embora ou conquanto. Tanto essas como as que aparecem aqui em epígrafe, falam de concessão, que o dicionário explica como sendo uma indicação de uma oposição ou restrição ao que se encontra expresso na oração subordinante. Diante dos fatores enumerados, o esperável é que muito se temesse, mas os salmistas dizem ... não ficaremos com medo.
Montes que se abalam, águas que tumultuam e espumejam, montanhas que estremecem são elementos normais de uma natureza que se transforma continuamente, num movimento dinâmico e condizente com suas próprias leis. Nesses elementos atuam forças muito maiores que aquelas que caracterizam os ainda mais dinâmicos e instáveis humanos mortais. Não temer é uma atitude daquele cujos olhos fixam-se não na turbulência dos montes e dos mares, mas no Deus que é refúgio – lugar onde alguém se abriga para fugir do perigo – e fortaleza – constância, segurança e solidez.
Isto posto, é inevitável concluir que não foi do meio da turbulência que os compositores do salmo 46 vislumbraram a Deus, como se estivessem sendo motivados a correr para o abrigo por causa do medo causado por rumores que vinham de todos os lados. Antes, foi do recôndito aconchegante e seguro, de dentro do lugar de refúgio, das alturas da fortaleza – de lá – foi que os salmistas contemplaram o caos e disseram: conquanto tudo se transtorne, nada temeremos.

terça-feira, novembro 08, 2005

Mas a torrente secou...



Então, Elias, o tesbita, dos moradores de Gileade, disse a Acabe:
Tão certo como vive o SENHOR, Deus de Israel, perante cuja face estou,
nem orvalho nem chuva haverá nestes anos, segundo a minha palavra.
Veio-lhe a palavra do SENHOR, dizendo:
"Retira-te daqui,
vai para o lado oriental e esconde-te junto à torrente do Querite, fronteira do Jordão.
Beberás da torrente; e ordenei aos corvos que ali mesmo te sustentem".
Foi, pois, e fez segundo a palavra do SENHOR;
retirou-se e habitou junto à torrente de Querite, fronteira ao Jordão.
Os corvos lhe traziam pela manhã pão e carne, como também pão e carne ao anoitecer;
e bebia da torrente. Mas, passados dias, a torrente secou, porque não chovia sobre a terra.
I Reis 17.1 a 7

Acima lê-se a narrativa de um encontro entre o rei Acabe e um dos profetas mais conhecidos da história dos judeus. A narrativa conta o fim de uma conversa do profeta com esse rei cujas ações vinham demonstrando um desvio em relação às crenças de seu povo. Nessa conversa, o profeta anuncia ao rei que, em conseqüência de suas ações, aquela nação sofreria uma ação disciplinadora da parte de seu Deus.
Lendo esse texto em busca de edificação espiritual, não pude deixar de notar determinados pontos que me pareceram muito relevantes, como também de inferir algumas instruções que são preciosas para minha vida:
1) "Tão certo como vive o Senhor" - as palavras anunciadas pelo profeta não são dele mesmo. Ele as ouviu de um Deus que vive. E esse fato - o de que ele é um Deus que vive - não é mera pressuposição do profeta. Tão certo quanto Deus vive, aquilo que suas palavras anunciam acontecerá. Quando, mais tarde, de fato, aconteceu, todos podiam saber que o Deus que falou ao profeta era mesmo um Deus que vive.
2) "Deus de Israel" - o anúncio de que Deus agiria de modo disciplinador não era um sinal de que ele tivesse deixado de ser o seu Deus. Pelo contrário: era um ato disciplinador e não ato de vingança. Ele os disciplinaria exatamente para mostrar-lhes que ele se importava com o modo como vivam. Não lhes era indiferente.
3) "perante cuja face eu estou" - isso é o que pode explicar o poder que se evidencia na vida desse profeta. A vida daquele que está perenemente perante a face de Deus não pode ser menos do que espetacular. Mas, pela mesma razão, sua vida causava grande impacto sobre a vida de outras pessoas, além de ser motivo de incômodo para os que servem ao reino da morte. Elias pertence ao reino do Deus que vive. Estar perante a face de Deus é usufruir da possibilidade de saber de si mesmo, de alcançar consciência da própria identidade. Isso se deve ao fato de que, quando Deus criou o homem, ele o fez à sua imagem e à sua semelhança. Estar perante sua face é esquivar-se da crise resultante da ignorância acerca de si mesmo, pois, sendo nós a sua imagem, contemplar a face dele é conhecer nossas origens e descobrir quem somos nós. De fato, é voltar à posição singular na qual encontramos respostas para nossas indagações mais profundas acerca da pessoa que somos. Essa é a razão porque o profeta tem a força e a firmeza que suas palavras demonstram. O profeta é a imagem e semelhança de seu Deus.
4) "nem orvalho, nem chuva durante três anos" - para um povo que habitava a região da Palestina, não ter chuva pelo período de três anos representava uma verdadeira catástrofe. E, embora estivessem acostumados a aproveitar o orvalho especialmente nos períodos de seca, o profeta acrescenta: "nem orvalho". As pessoas haveriam de comer e de beber o que já tinha sido colhido, o que já tinha sido ajuntado. Depois disto, a maior certeza era a morte. Deus é severo. Não é de brincadeira. O seu povo é obstinado em sua rebeldia. E o seu profeta mantinha a postura de quem estava constantemente perante a face do Deus vivo.
5) "segundo a minha palavra" - essa é, de fato, uma expressão muito forte na fala do profeta. Ele conhecia bem a quem estava servindo. Sabia que seu Deus honraria a palavra de seu profeta. Nenhum de seus termos estava em insegurança. Nessa hora, Nessa hora, a palavra do profeta é a palavra do seu Deus e, portanto, infalível.
6) "Veio-lhe a palavra do Senhor" - isso além de reafirmar o fato de que Deus está vivo mesmo, mostra que são dele as iniciativas. Ele está na posição de SENHOR. Sua fala é inteligível e o seu profeta o compreende. Ele é um Deus pessoal que se comunica direta e pessoalmente com o seu profeta, seu servo. Mas sua fala também cria oportunidade para que a fé de seu servo se reafirme, porque dá ordens e faz promessas. Manda-o para uma região onde há uma fonte de água (mas que em breve deverá secar-se) e ficar à espera da providência do alimento que virá de forma bastante incomum (trazida por corvos ordenados por Deus a sustentarem o profeta).
7) "Foi, pois, e fez segundo a palavra do SENHOR" - por mais estranha que fosse a ordem do SENHOR, o seu servo - em perfeita interação com ele - reage de forma a mostrar sua confiança na promessa sobrenatural de Deus e sua dependência absoluta dele. Não questiona. Não refuta. Obedece. Não em parte, mas completamente, 'segundo a palavra do SENHOR'. Está pronto a obedecer de imediato, sem vacilar.
8) "Os corvos lhe traziam pela manhã pão e carne, como também pão e carne ao anoitecer; e bebia da torrente" - um cardápio simples, mas completo. Ele dá o pão para cada dia, suprindo as mais básicas necessidades de seus filhos. Na medida: sem sobrar se sem faltar, pela tarde e pela manhã. Deus conhece a estrutura daqueles que ele mesmo arquitetou e construiu. Cumprindo cada parte de sua promessa. Não bênção pela metade. Além disso, dispõe de todos os elementos de sua criação. Tudo lhe pertence e está a seu serviço.
9) "Mas ... a torrente secou" - findou-se esse tempo na vida do profeta, durante o qual ele esteve vivendo de si para si mesmo, numa postura passiva, de total dependência. Como disse o sábio Salomão, há tempo para todo propósito debaixo do sol. Houve um tempo para o profeta ficar à mercê do inteiro cuidado de Deus que supria totalmente suas necessidades através de meios externos ao profeta, mas agora ele está no limiar de um tempo em que ele será usado para suprir a necessidade de outros. Entre esses dois momentos está a fonte que seca. A fonte seca e isso prova a fé do profeta que aguarda novas orientações e novas promessas de Deus. Haverá Deus de continuar a suprir suas necessidades mais básicas agora, justamente agora, quando a seca é mais intensa e quando a terra nada produz e a fome se multiplica nas casas? Mas se o secar da fonte representa um momento de prova da fé que o fará continuar dependente de Deus, representa também a confirmação de Deus para com a palavra do profeta dirigida ao rei. De fato, tão certo como vive o Senhor, a chuva não veio, a fonte secou. E então o profeta há de sair desse retiro e ir ao encontro das pessoas que sofrem porque todas as fontes secaram. É a hora quando Deus lhe diz: ‘Vai à cidade de Sarepta..."
É inevitável perceber que o profeta de Deus anuncia sua palavra e, às vezes, trata-se de uma palavra de disciplina para com aqueles a quem Deus quer reaproximar de si mesmo. O calor dessa ação poderosa de Deus, produz efeitos que atingem também ao profeta. Ele não está imune às dores que advêm das ações disciplinadoras de Deus para com aqueles que cercam o profeta. De fato, a maior parte dos sofrimentos que se experimenta aqui, neste lado da eternidade, são meras conseqüências de viver-se num mundo atingindo pela queda no pecado. Assim como se deu com o profeta, não estamos livres das conseqüências de ações de pessoas rebeldes contra Deus, mas estamos sobrenaturalmente protegidos de seus efeitos. A 'vara' de Deus sobre os que insistem em rebelar-se contra ele, tem suas ressonâncias sobre mim. Mas também, como aconteceu com o profeta, devo estar disposta a obedecer-lhe incondicionalmente, por mais absurdas que me pareçam suas ordens e até mesmo suas promessas. É isso que me levará a desfrutar da poderosa ação de Deus, que é SENHOR sobre toda a natureza, suprindo-me nas mais básicas de minhas necessidades.
E quando a fonte secar, será sábio agir como agiu o profeta: sem queixumes, sem lamentações. Os lugares mais promissores podem tornar-se em alvos de ataque, visados por inimigos. Será a oportunidade para trocar a solidão do lugar seguro por aqueles onde estão pessoas necessitadas às quais Deus abençoará por meu intermédio.
Com Deus, a vida não é uma rotina interminável, carregada de mesmices. Pelo contrário: Deus transforma nossas vidas em grandes aventuras cheias de novidades.

quinta-feira, novembro 03, 2005

Conversando com o Pastor das ovelhas

Eu sou o pastor das ovelhas. Sou o bom pastor.
Eu conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem.
Eu as chamo pelo nome elas me seguem,
porque conhecem a minha voz.
Eu sou a porta das ovelhas.
Quem entrar por mim achará pastagens.
Encontrará liberdade para ir e vir.
João 10 (paráfrase)

Inicio a grande aventura de seguir, como ovelha, ao meu Bom Pastor que, ao abrir a porta do aprisco, conduz-me para fora – para as boas pastagens, para o exercício físico e para teste disciplinar; para as águas frescas e para aprender a andar sempre nos caminhos das justiça. A cada dia, reinicio essa aventura e ela é, em cada uma das vezes, inimaginavelmente nova.
Aprendo, desde cedo, a segui-lo mesmo para os vales sombrios, onde a sua presença é ainda mais sensível e também mais urgente e a disciplina é fundamental. Descubro que nesses vales é que as águas são incrivelmente frescas, como em nenhum outro lugar. É ali que a paisagem tem um encanto tal que eu bem poderia dizer que é um verdadeiro espetáculo, um show de beleza indescritível.
Está-se desenvolvendo o processo de aprender a encarar o adversário de frente, sem, todavia, estabelecer qualquer relação com ele. Sento-me à mesa do meu Pastor, em íntima comunhão com ele. Sua presença é deliciosa e ele manda que eu seja servida do manjar cujo sabor as palavras não dão conta. Sou ungida com óleos tais que refrescam desde a superfície de minha pele até os ressecamentos mais profundos de minha alma. Ao servir a minha taça, enche-a até transbordar. Parece mesmo fabuloso que tudo isso se dê perante os olhos de quem se fez meu inimigo e que muito se desagrada da cena que assiste. Assiste furioso, mas impotente: estou à mesa de meu Pastor.
Cada dia, torno a constatar que esse é mesmo o Criador que viu sua obra de arte quebrar-se e parecer arruinada, mas que é Todo-Poderoso o suficiente para conceder à minha pequena e frágil alma a graça de uma existência substancialmente livre e ousada, cercada de bondade e misericórdia, num mundo que jaz no maligno. Mas o melhor de tudo isso é saber que assim será até aquele dia quando, mais que sua hóspede de honra, instalar-se-á a adoção, o meu estabelecimento definitivo na posição de filho na casa onde passarei a habitar por dias que não terão fim.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Renovação paulatina

Pouco a pouco, os lançarei de diante de ti, até que te
multipliques e possuas a terra por herança. Não
os lançarei de diante de ti num só ano, para que
a terra se não torne em desolação e as feras
do campo se não multipliquem contra ti.
Êxodo 23.30-31

O texto em epígrafe é parte das orientações dadas a um povo que estava sendo tirado de uma terra onde tinham sido escravos por mais de 400 anos. Através dessas palavras, seu Deus lhes faz uma promessa de desocupar a terra que já lhes pertencia desde antes de seus anos de escravidão e que fora ocupada por outros povos. Todavia, esclarece que não vai desocupá-la toda de uma vez, mas há de fazê-lo paulatinamente, na medida que eles se fossem multiplicando. Caso contrário, a terra poderia ser invadida por feras.

Essa narrativa me faz lembrar de uma coisa que ouvi, certa vez, de um amigo psicólogo. Ele dizia que, quando lidava com situações em que as pessoas estavam inseridas em crises muito intensas e iniciadas já há muito tempo, as terapias nunca visavam a extinguir abruptamente tais crises. A razão é que, quando as pessoas lidam há muito tempo com situações que absorvem seu tempo, sua atenção e sua energia, elas vão-se tornando dependentes de tais crises. Extingui-las, abruptamente, seria o mesmo que retirar-lhes a base de sua sustentação, o motivo pelo qual, em última análise, elas vivem. Desse modo, o terapeuta deveria trabalhar no sentido de conduzir essas pessoas a encontrarem novas fontes de motivação para a vida. E, somente, quando coisas novas fossem ocupando o espaço em suas mentes e corações, é que poderiam ir desocupando-se das antigas ocupações. É incrível pensar nisso. Existem pessoas que são sustentadas pelas mesmas coisas que as atormentam. Lembro-me de um trecho de um poema barroco, intitulado "A uma ausência" do escritor português, Antônio Barbosa Barcelar, que diz justamente isso:

"Sinto-me sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo, que me alenta,
O mal, que me consome, me sustenta,
O bem, que me entretém, me dá cuidado"

De fato, Deus conhece a estrutura do ser humano. É isso que somos. Nosso ser não é mais que uma ausência. Ocupamo-nos desesperadamente das coisas que tocarem as nossas vidas. Às vezes, algumas delas tocam nossos corações, consumindo-nos e dilacerando-nos. E, no entanto, não buscamos extingui-las, porque sabemos que o vazio, a ausência, é pior que qualquer outro mal. Não sabemos viver uma vida sem propósito. Mas há propósitos que queimam como fogo, enquanto insistimos em pensar que eles apenas nos alentam.
Eu entendo que é por isso que, quando encontramos em Deus o grande e único propósito que nos sacia com o bem verdadeiro, ele nos conduz, daí em diante, num tratamento que varia de uma para outra pessoa, da perspectiva temporal. Conquanto a obra de Deus no ser humano seja plena desde o primeiro encontro com ele, há uma caminhada a ser feita, durante a qual o Espírito dele vai enchendo a vida da pessoa de fruto e livrando-a dos ranços oportunistas e parasitários de uma vida velha. Se pensarmos bem, às vezes não temos, para com as pessoas, nem com nós mesmos, a mesma paciência que vemos em Deus.

Quando o povo, que fora libertado de sua escravidão, foi levado à terra que outrora era deles e agora voltaria a ser, eles tiveram que aprender a sabedoria de esperar a desocupação paulatina da terra, a qual iria acontecer na mesma medida em que fossem se multiplicando. Tomar posse da terra envolveria um processo de dupla face. Por um lado, era preciso que a terra fosse desocupada; por outro, era preciso crescer. E tudo isso num dinamismo tal que fosse capaz de impedir a acomodação na situação de crise.

Esse processo me ensina muitas coisas: É preciso saber quem sou, saber que sou distinto daquilo que, porventura, invadir a minha terra, o meu espaço, a minha vida, seja lá o que for. É preciso, ainda buscar ocupar a herança que me foi dada, o que farei na mesma proporção em que aprender a despir-me do que cheira à antigüidade, na mesma proporção em que aprender a despedir-me dos fantasmas que se negam como tais, na mesma proporção em que valores novos passam a encantar o meu olhar.
É, assim, através deste processo, que vou deslocando o meu investimento de tempo, atenção e energia para as coisas que são totalmente novas.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Sendo servido ao servir


Então, lhe veio a palavra do SENHOR, dizendo: Dispõe-te, e vai a Sarepta,
onde ordenei a uma mulher viúva que te dê comida.
Então, ele se levantou e se foi a Sarepta;
chamou a viúva e lhe disse: Traze-me, peço-te, uma vasilha de água para eu beber.
Traze-me também um bocado de pão na tua mão.
Porém ela respondeu: Tão certo como vive o SENHOR, teu Deus, nada tenho cozido;
há somente um punhado de farinha numa panela e um pouco de azeite numa botija;
vou preparar esse resto de comida para mim e para o meu filho;
comê-lo-emos e morreremos.
Elias lhe disse: Não temas;
assim diz o SENHOR, Deus de Israel: A farinha da tua panela não se acabará,
e o azeite da tua botija não faltará, até ao dia em que o SENHOR fizer chover sobre a terra.
Foi ela e fez segundo a palavra de Elias; assim, comeram ele, ela e a sua casa muitos dias.
Da panela a farinha não se acabou, e da botija o azeite não faltou,
segundo a palavra do SENHOR, por intermédio de Elias. I Reis 17.8-16

A situação inicial
A fonte que supriu Elias durante os dias iniciais da seca que sobreveio à sua terra secara. Durante aqueles dias, o próprio Deus encarregou-se de suprir o seu profeta de alimento, enviando-a por meio de corvos. A


A nova ordem

Então, a palavra do Senhor veio novamente ao profeta, dando-lhe uma ordem, humanamente questionável, pois não havia água, não havia comida: "sai de onde estás, da tua terra (da região de Querite, a leste do Jordão, pouco distante do Mar Morto) e vai à Sarepta, que pertence a Sidom." O profeta não questiona. Apenas obedece. Parte para uma longa viagem. Não havendo água, nem comida, não se sabe como ele será sustentado durante a viagem, pois não é mencionado no texto. Nada sabemos e, provavelmente, nem mesmo o profeta o sabia. Era uma questão de confiança.

Em meio a escassez

Ao chegar à cidade, muito provavelmente, foi reconhecido como profeta, por causa de seus trajes característicos. E, tão logo viu a viúva, pediu água. Acrescentou outro pedido: pão. A resposta da viúva foi surpreendente: "não tenho nada pronto. Mas tenho um punhado de farinha e um pouco de azeite. Estava ainda agora indo preparar a última refeição para mim e para meu filho. É tudo que tenho. Comeremos e depois moremos." Na seqüência do diálogo, o profeta, lhe diz que preparasse sim, mas para ele primeiro. Só depois haveria de preparar para ela e para seu filho. Depois de teres dado prioridade de servir a Deus, que resolveu suprir a necessidade de seu profeta através de ti - esclarece o profeta (porque não se tratava de um ato de egoísmo de sua parte) - "verás que o azeite não acabará na botija, nem a farinha na panela."

Escolhendo entre o que se vê e o que se não vê

Era uma ordem difícil de obedecer, seguida de uma promessa difícil de alguém querer correr o risco de perder. O raciocínio lógico conduziria ao pensamento de que ela poderia fazer uma última refeição, da qual tinha certeza e, com a mesma certeza, aguardar a morte para si e para seu filho. Ou, ela poderia abrir mão de comer com seu filho aquela última refeição que seus olhos provavam estar lá, numa atitude de fé na promessa de que não morreriam de fome, pois o suprimento viria da parte de Deus para muitos dias.
Ela preferiu abrir mão de que via em benefício da esperança de alcançar o que ainda não se via. Foi, fez como o profeta orientou. E, de fato, a promessa se cumpriu: a farinha não se esgotou da panela, nem o azeite da botija.

Aprendendo a lição do texto

Embora esse texto seja carregado de simbolismos, não os quero explorar aqui. Quero guardar, desta vez, a mensagem que salta do texto: Deus, comprometido com seu servo profeta, comprometido em sustentá-lo em dias de seca e de fome na terra, abençoa com fartura uma viúva pobre, cuja esperança era comer a última refeição com seu filho e sentar à espera da chegada da morte, sem nenhuma alternativa. Muitas lições essa narrativa traz ao meu coração.

1) Escolher com sabedoria e motivado pela fé: Aquela viúva poderia ter preferido optar pela comida certa, na frente dos seus olhos para não antecipar a inevitável morte – afinal ela pertencia a outro povo que não servia ao mesmo Deus do profeta –, e não faltariam outras pessoas a quem Deus pudesse abençoar para sustentar o seu profeta. Fico pensando que esse é um princípio característico do modo de Deus agir. Muitas vezes a oportunidade de ajudar e de servir bate à minha porta. Preciso estar atenta para não deixar passar tal oportunidade de ver Deus suprindo abundantemente minhas necessidades com o objetivo de suprir a necessidade de seus enviados. Não posso deixar de perceber que, primeiro Deus ordena a doar, espera minha resposta de confiança na palavra dele, para então, e tão somente então, fazer transbordar a minha dispensa.

2) Repartindo o pouco e vendo-o tornar-se no suficiente: Por outro lado, não posso deixar de observar que Deus não escolheu uma pessoa abastada para suprir a necessidade de seu profeta, tornando-a, ainda mais abastada (certamente, para que a tal pessoa abastada jamais gabasse de si mesma, dizendo que foi abençoado por dar daquilo que já era seu - como se o que ela tinha já não fosse uma dádiva de Deus). A viúva doou de sua pobreza, do pouco que tinha.

3) Reconhecendo a soberania de Deus na escolha de seus instrumentos: Ao olhar o texto por esse ângulo, o que percebo é que o profeta não questionou a Deus, com soberba, achando que fosse um absurdo Deus mandá-lo a uma terra estrangeira para ser sustentado por uma viúva à beira do desespero. O fato é que ninguém é miserável demais, ninguém é tão pobre que não possa ser usado por Deus para abençoar. Além disso, quem determina o instrumento de bênção é o abençoador, não o abençoado. Infelizmente, ou felizmente (quem sabe?) geralmente as pessoas de menos posses são as que têm coração mais aberto para abençoar a outros, mesmo em face de grande pobreza.

4) É preciso aprender a honrar os enviados de Deus: Esse episódio é citado por Jesus muitos séculos mais tarde, para dizer que um profeta não tem honra em sua própria terra. É assim que ele diz: "quantas viúvas havia em Israel naqueles dias? Mas a nenhuma delas foi enviado o Elias, senão à viúva de uma terra estrangeira, à viúva de Sarepta, em Sidom". Espero que Deus me ajude a não desonrar aqueles que são levantados por ele para falar em minha terra, no meu contexto, à minha vida.